São Paulo é uma cidade imensa e cinza. Saindo do Centro e
indo para a Freguesia do Ó pode-se ver a cidade se afastando. São
prédios e prédios e prédios e mais prédios; todos altos, muito altos,
parece que um querendo ser mais alto que o outro. Não há como
não se assombrar com o tamanho de tudo nessa megalópole
tupiniquim.
São Paulo parece padecer do mal desses garotos muito ricos
que têm famílias sem história e compram mansões, coberturas e
carros esportivos velozes (talvez seja para compensar também
alguma inferioridade fálica, visto o sem-número de espigões
erigidos em seu meio).
As proporções de tudo são enormes. Uma teia sem fim de
ruas e ruas e ruas se entrecortando. Ruas e ruas subindo e
descendo. Literalmente subindo e descendo, descendo e subindo.
Não há uma rua plana em São Paulo. Fico imaginando que os
pedreiros paulistanos sejam verdadeiros experts no uso do nível de
bolha e do fio de prumo. Parece que a falta de contato com o mar
deixa a cidade assim. Até nisso parece haver algum tipo de
compensação: já que não há o mar, as ruas formam ondas; já que
as ondas são de concreto e asfalto, há skatistas onde deveria haver
surf.
A imensidão de concreto fez também com que eu descobrisse
pelo menos umas vinte novas tonalidades de cinza que meus olhos
não sabiam existir. Alguns amigos ainda insistem que São Paulo é a
cidade perfeita para o meu estilo de vida. Talvez até estejam certos
em alguns aspectos, mas falta o essencial. Falta a sutileza da
diferença.
Certa campanha turística estigmatizou São Paulo como uma
espécie de Nova York dos trópicos. “A cidade que nunca dorme”.
Ela dorme, e dorme cedo! Mas... Ah! A noite paulistana. Seus
restaurantes, bares, boates... Tudo é feito aos moldes de algum
outro lugar. Uma cidade feita por imigrantes internos e externos
para turistas e migrantes internos e externos não se sentirem
totalmente “lá”. Aliás, até duvido que esse “lá” realmente exista. Se
existir, deve estar oculto no meio da imensidão imponente e gris.
Me vem a canção Sampa, de Caetano Veloso, à cabeça para
tentar falar das moças de São Paulo. A “deselegância” não é
discreta. É over. Overdrive, overloaded, overfashioned – São Paulo
fala inglês quando convém e quando não convém – mas as
meninas são lindas. Todas. As meninas de família, as burguesinhas
entediadas, as alternativas, as proletárias e as putas das esquinas.
Essas últimas, por sinal, merecem uma abordagem mais
aprofundada. São lindas demais, mas não são paulistanas de
origem. São mineiras, goianas, baianas, mato-grossenses que
buscam em São Paulo oportunidades de vida que acabam não
encontrando ou, até mesmo, encontram ao estudar em
universidades, mas acabam fazendo das ruas seu modo de
sustentar temporariamente tão caro empreendimento. Mas como
são belas as meninas da vida em São Paulo!
Tudo ali é sexo. Geografia, arquitetura, modo de vida e
sociedade. A cada quarteirão, um grande cinema pornô ou um
prostíbulo ou um “inferninho”. Às vezes, vários no mesmo
quarteirão. Quase sempre de modo caoticamente distribuído,
embora se diga que há áreas destinadas a tal entretenimento.
Mais do que sexo, São Paulo é gay. Mais! São Paulo é
pansexual! Qualquer ambiente em São Paulo é sui generis. Não há
limites. Poder-se-ia dizer que há uma ponta de preconceito em
minhas palavras, mas garanto que não. Chega a ser um pouco o
contrário. Parece um contra-senso afirmar-se exclusivamente
heterossexual por lá. Não sou preconceituoso, sou apenas
“quadrado”, apesar de minha absoluta tolerância para com os
modos de vida alheios.
Gostaria de voltar a falar da arquitetura paulistana, já que o
assunto é sexo. É uma cidade de prédios que se convertem em
falos homéricos e largos e praças onde se pode mergulhar. Mas os
prédios são inúmeros e os largos são poucos. A cidade com curvas
e ondas sufoca-se em meio a tantos sinais verticais desejantes de
manifestar sua imponência e magnitude. Há o maior de todos,
estrategicamente também um símbolo do poder econômico desse
lugar: o prédio do Banespa, o mais paulista dos bancos. Do alto de
sua torre pode-se ver todo o centro e além, todos os prédios que
não conseguem ser tão altos e ricos quanto ele e grita de uma
maneira aguda e vertiginosa toda a sua superioridade: “O meu é
maior que o de todos vocês!”. Mas meu jocoso espírito carioca
pergunta: “Dá para ver tudo mesmo?”, “Sim, tudo!”, “Dá para ver o
mar?” e uma careta de meu interlocutor responde o meu riso e eu
me encho de filosofia litorânea pensando: “Para que uma visão tão
vertical que se ela não pode deitar-se no aconchego molhado das
ondas?”. E uso isso como alternativa à minha galopante acrofobia
para não escalar tal torre.
Nesse ambiente claustrofóbico e impositivo, a população
parece fugir ou querer se esconder. O espaço para essa fuga
encontra-se no subsolo. Os paulistas andam de metrô. Uma
extensa e intrincada rede metroviária corta e entrecorta os
subterrâneos urbanos. Há um minhocário humano embaixo de São
Paulo. Se do alto de seus prédios as pessoas parecem formigas, os
metrôs são os formigueiros “por onde entra e sai o mundo”, onde se
transita para lá e para cá em velocidade vigorosa.
Assim como as formigas, há divisões nos tipos de cidadãos.
São Paulo fervilha de tribos urbanas em categorias e subcategorias
diversas. Há engravatados e proletários. Paulistanos e baianos.
Hip-hoppers e rockeiros. Dentre os rockeiros (categoria da qual
posso falar com alguma propriedade) há punks, headbangers,
indies, emos, góticos. Todos absolutamente diferenciados em suas
tamanhas semelhanças. A cidade se propõe – ou, ao menos, se
declara – cosmopolita. Mas as divisões são claras. Bairros de
judeus, de italianos, de “japas”, de nordestinos... Não só os bairros,
mas também se vê nos centros de consumo (consumo, sim. É um
território essencialmente capitalista) e de circulação tais divisões.
Não cometerei o exagero de comparar a uma sociedade de castas,
mas a mistura ainda está longe.
Paulistanos são esforçados (quando assim o querem) em
serem simpáticos. Eles até tentam... Mas são duros como a cidade.
Preferem o aperto de mão ao abraço. Dão só um beijo (como pode
eles desconhecerem a funcionalidade social do “um-dois” ao
cumprimentar?). O paulistano só é realmente afável com quem lhes
é muito querido. Aí eles abraçam, acolhem. Só continuam
desconhecendo o “um-dois” na hora de dar beijos... Não se pode
forçar tanto assim a natureza... Nisso eu tenho que reverenciar os
“meus” paulistas. Certamente tenho muita sorte em lhes ser de
grande estima e eles são mestres na arte do receber, ou, para
minha felicidade, me receber.
São Paulo merece mais que apenas uma crônica ou uma
canção; seu espaço seria um blog, talvez o MySpace ou algum
outro meio multimídia, uma enciclopédia em DVD ROM, mas, seja o
que for, há que ser moderno, grande e, se possível, vertical.
indo para a Freguesia do Ó pode-se ver a cidade se afastando. São
prédios e prédios e prédios e mais prédios; todos altos, muito altos,
parece que um querendo ser mais alto que o outro. Não há como
não se assombrar com o tamanho de tudo nessa megalópole
tupiniquim.
São Paulo parece padecer do mal desses garotos muito ricos
que têm famílias sem história e compram mansões, coberturas e
carros esportivos velozes (talvez seja para compensar também
alguma inferioridade fálica, visto o sem-número de espigões
erigidos em seu meio).
As proporções de tudo são enormes. Uma teia sem fim de
ruas e ruas e ruas se entrecortando. Ruas e ruas subindo e
descendo. Literalmente subindo e descendo, descendo e subindo.
Não há uma rua plana em São Paulo. Fico imaginando que os
pedreiros paulistanos sejam verdadeiros experts no uso do nível de
bolha e do fio de prumo. Parece que a falta de contato com o mar
deixa a cidade assim. Até nisso parece haver algum tipo de
compensação: já que não há o mar, as ruas formam ondas; já que
as ondas são de concreto e asfalto, há skatistas onde deveria haver
surf.
A imensidão de concreto fez também com que eu descobrisse
pelo menos umas vinte novas tonalidades de cinza que meus olhos
não sabiam existir. Alguns amigos ainda insistem que São Paulo é a
cidade perfeita para o meu estilo de vida. Talvez até estejam certos
em alguns aspectos, mas falta o essencial. Falta a sutileza da
diferença.
Certa campanha turística estigmatizou São Paulo como uma
espécie de Nova York dos trópicos. “A cidade que nunca dorme”.
Ela dorme, e dorme cedo! Mas... Ah! A noite paulistana. Seus
restaurantes, bares, boates... Tudo é feito aos moldes de algum
outro lugar. Uma cidade feita por imigrantes internos e externos
para turistas e migrantes internos e externos não se sentirem
totalmente “lá”. Aliás, até duvido que esse “lá” realmente exista. Se
existir, deve estar oculto no meio da imensidão imponente e gris.
Me vem a canção Sampa, de Caetano Veloso, à cabeça para
tentar falar das moças de São Paulo. A “deselegância” não é
discreta. É over. Overdrive, overloaded, overfashioned – São Paulo
fala inglês quando convém e quando não convém – mas as
meninas são lindas. Todas. As meninas de família, as burguesinhas
entediadas, as alternativas, as proletárias e as putas das esquinas.
Essas últimas, por sinal, merecem uma abordagem mais
aprofundada. São lindas demais, mas não são paulistanas de
origem. São mineiras, goianas, baianas, mato-grossenses que
buscam em São Paulo oportunidades de vida que acabam não
encontrando ou, até mesmo, encontram ao estudar em
universidades, mas acabam fazendo das ruas seu modo de
sustentar temporariamente tão caro empreendimento. Mas como
são belas as meninas da vida em São Paulo!
Tudo ali é sexo. Geografia, arquitetura, modo de vida e
sociedade. A cada quarteirão, um grande cinema pornô ou um
prostíbulo ou um “inferninho”. Às vezes, vários no mesmo
quarteirão. Quase sempre de modo caoticamente distribuído,
embora se diga que há áreas destinadas a tal entretenimento.
Mais do que sexo, São Paulo é gay. Mais! São Paulo é
pansexual! Qualquer ambiente em São Paulo é sui generis. Não há
limites. Poder-se-ia dizer que há uma ponta de preconceito em
minhas palavras, mas garanto que não. Chega a ser um pouco o
contrário. Parece um contra-senso afirmar-se exclusivamente
heterossexual por lá. Não sou preconceituoso, sou apenas
“quadrado”, apesar de minha absoluta tolerância para com os
modos de vida alheios.
Gostaria de voltar a falar da arquitetura paulistana, já que o
assunto é sexo. É uma cidade de prédios que se convertem em
falos homéricos e largos e praças onde se pode mergulhar. Mas os
prédios são inúmeros e os largos são poucos. A cidade com curvas
e ondas sufoca-se em meio a tantos sinais verticais desejantes de
manifestar sua imponência e magnitude. Há o maior de todos,
estrategicamente também um símbolo do poder econômico desse
lugar: o prédio do Banespa, o mais paulista dos bancos. Do alto de
sua torre pode-se ver todo o centro e além, todos os prédios que
não conseguem ser tão altos e ricos quanto ele e grita de uma
maneira aguda e vertiginosa toda a sua superioridade: “O meu é
maior que o de todos vocês!”. Mas meu jocoso espírito carioca
pergunta: “Dá para ver tudo mesmo?”, “Sim, tudo!”, “Dá para ver o
mar?” e uma careta de meu interlocutor responde o meu riso e eu
me encho de filosofia litorânea pensando: “Para que uma visão tão
vertical que se ela não pode deitar-se no aconchego molhado das
ondas?”. E uso isso como alternativa à minha galopante acrofobia
para não escalar tal torre.
Nesse ambiente claustrofóbico e impositivo, a população
parece fugir ou querer se esconder. O espaço para essa fuga
encontra-se no subsolo. Os paulistas andam de metrô. Uma
extensa e intrincada rede metroviária corta e entrecorta os
subterrâneos urbanos. Há um minhocário humano embaixo de São
Paulo. Se do alto de seus prédios as pessoas parecem formigas, os
metrôs são os formigueiros “por onde entra e sai o mundo”, onde se
transita para lá e para cá em velocidade vigorosa.
Assim como as formigas, há divisões nos tipos de cidadãos.
São Paulo fervilha de tribos urbanas em categorias e subcategorias
diversas. Há engravatados e proletários. Paulistanos e baianos.
Hip-hoppers e rockeiros. Dentre os rockeiros (categoria da qual
posso falar com alguma propriedade) há punks, headbangers,
indies, emos, góticos. Todos absolutamente diferenciados em suas
tamanhas semelhanças. A cidade se propõe – ou, ao menos, se
declara – cosmopolita. Mas as divisões são claras. Bairros de
judeus, de italianos, de “japas”, de nordestinos... Não só os bairros,
mas também se vê nos centros de consumo (consumo, sim. É um
território essencialmente capitalista) e de circulação tais divisões.
Não cometerei o exagero de comparar a uma sociedade de castas,
mas a mistura ainda está longe.
Paulistanos são esforçados (quando assim o querem) em
serem simpáticos. Eles até tentam... Mas são duros como a cidade.
Preferem o aperto de mão ao abraço. Dão só um beijo (como pode
eles desconhecerem a funcionalidade social do “um-dois” ao
cumprimentar?). O paulistano só é realmente afável com quem lhes
é muito querido. Aí eles abraçam, acolhem. Só continuam
desconhecendo o “um-dois” na hora de dar beijos... Não se pode
forçar tanto assim a natureza... Nisso eu tenho que reverenciar os
“meus” paulistas. Certamente tenho muita sorte em lhes ser de
grande estima e eles são mestres na arte do receber, ou, para
minha felicidade, me receber.
São Paulo merece mais que apenas uma crônica ou uma
canção; seu espaço seria um blog, talvez o MySpace ou algum
outro meio multimídia, uma enciclopédia em DVD ROM, mas, seja o
que for, há que ser moderno, grande e, se possível, vertical.
fevereiro de 2007

0 comentários:
Postar um comentário