segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Deep

Daquelas sensações que você sabe que só vai ter uma vez na vida.

Quando bem mais novo, com aspirações a poeta, escrevia sobre o que ainda não havia vivido, era tudo não mais que idealizações, uma destas era sobre os cabelos da mulher que eu sonhava um dia ter, que em meus jovens anseios eram em ondas como um mar denso e noturno no qual eu não me importaria de navegar, me perder e me afogar. Culpa das grandes divas que me extasiavam (em especial a Gilda de Rita e a Mulher-Gato de Julie).

Passado certo tempo eu me dei conta de que tal perfeição era truque cinematográfico, mas aí a realidade já se tornara bem mais interessante. Nada como os cabelos desgrenhados da mulher desejada durante e após o amor, superando qualquer produção que elas façam ou qualquer intervenção térmica ou química que alguém (que deve odiar as mulheres) invente e que elas caiam nessa (muitas vezes chega a dar até tristeza)...

Até que, lá pelas tantas, você a vê e lá está a densidade, lá estão as ondas, lá está a escuridão. Pior (ou melhor) que isso, lá está aquele caimento que parece editado, parece proposital, tamanha a medida do mistério de ocultar e revelar um rosto que toca a perfeição. Truque de cinema? Não, tudo isso acontece diante de seus olhos, em um efeito que não pode ser classificado como menos que hipnótico. E você se encanta, e há o encontro. O roteirista só pode estar maluco, mas não há roteiro.

Durante tal encontro, você a vê por ângulos que sua mente pueril só tentava imaginar e que seus olhos adultos já não esperavam mais ver e, durante instantes, suas mãos o levam a navegar, a se perder e se afogar em um mar negro, noturno, de ondas suaves e perfeitas que as estrelas do celuloide só eram capazes com equipes cuidando de seus efeitos.

Então você sabe que atingiu um ponto que poucas pessoas conseguem: a realização. Ainda que nunca mais a tenha, ainda que nunca mais se repita.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

30 YEARS AFTER MY FIRST APOCALYPSE

A mídia sempre se preocupou com o fim do mundo... Desde os tempos mais antigos, há relatos de previsões sobre tal acontecimento. Durante eras imperou a ideia de alguma grande intervenção divina, afinal a ciência ainda não era algo estabelecido e o homem talvez ainda não se achasse capaz de fazê-lo por si só, até porque ainda eram poucos indivíduos sobre o mundo. Concentrar-me-ei nas épocas e nos medos que presenciei.

Quem foi, como eu, criança no finalzinho dos anos 1970 e em boa parte dos anos 1980 deve se lembrar do grande medo da época: a hecatombe nuclear! A guerra fria mantinha em nós o medo de não haver um amanhã porque alguém das grandes potências _EUA e URSS_ poderia apertar a qualquer minuto o botão que desencadearia a guerra final. Dois filmes estadunidenses, ambos produzidos no ano de 1983 retratam muito bem esse medo: “Jogos de Guerra” (War Games, de John Badham) e “O Dia Seguinte” (The Day After, de Nicholas Meyer), sendo que este segundo causou uma comoção tremenda, foi um verdadeiro choque. Vários músicas populares versavam sobre o assunto que era também recorrente no seriado “Além da Imaginação” (The Twilight Zone), em um dos episódios da época, chamado “Um Pouco de Paz e Tranquilidade” (A Little Peace and Quiet) a protagonista para o tempo no momento em que os primeiros mísseis nucleares são lançados (perdão pelo spoiler). Mais aterrorizante que propriamente pacifista. Agradecimentos a Wes Craven.

Já no final dos anos 1980 até os anos 1990 termina a guerra fria, cai o muro de Berlim, Gorbachev desmonta a União Soviética e começa a revolução tecnológica. O mundo se via diante de um novo dilema: o avanço tecnológico industrial dava saltos cada vez maiores, pessoas perdem seus empregos para sistemas automatizados, o computador pessoal invade as casas, o conceito de redes mundiais de comunicação digital se estabelece. AS MÁQUINAS DOMINARÃO O MUNDO! Ok, Asimov já pensava nisso em 1950, mas agora a coisa era real! Uma coisa interessante sobre os dois filmes mais emblemáticos dessa época é que eles só fizeram sucesso realmente muito tempo depois de produzidos, passando boa parte de suas “vidas” sendo considerados cult até se tornarem populares com o aparecimento do videocassete e o novo mercado de videolocadoras, que facilitou o acesso de vários filmes ao grande público. São eles “Blade Runner – Caçador de Androides” (Ridley Scott, 1982) e “O Exterminador do Futuro” (The Terminator, de James Cameron, 1984).

A passagem do século XX para o XXI trouxe consigo uma nova preocupação mundial: o desequilíbrio ecológico. Mais uma vez algo que já era falado desde os anos 60 só que, assim como a paranoia tecnológica, o ser humano percebeu que a coisa era pra valer e não apenas chilique de um bando de hippies cabeludos. Filmes-símbolo: “O Dia Depois de Amanhã” (The Day After Tomorrow, de Roland Emmerich, 2004) e o documentário de Al Gore, “Uma Verdade Inconveniente” (An Inconvenient Truth, 2006). Vale dizer que Al Gore ganhou o Nobel da Paz em 2007 devido a seus esforços pela divulgação da causa ecológica. Outros autores exploravam outras formas “naturais” de destruição do mundo... alguns pensavam em um asteroide, como no tempo dos dinossauros, outro em vulcões ou maremotos... sempre “a natureza se vingando” (diria Fernando Pessoa sobre isso “Só a Natureza é divina, e ela não é divina.../ Se falo dela como de um ente/ É que para falar dela preciso usar da linguagem dos homens/ Que dá personalidade às cousas, E impõe nome às cousas.”), alguns inventavam doenças e epidemias, mas estas eram sempre controladas, a Natureza não.

E cá estamos nós já na segunda década do século XXI, os anos 10, e eis que ressurge com força extrema algo que era uma temática para lá de alternativa e restrita aos filmes “B” de terror dos anos 60 aos 80: o apocalipse zumbi! Mortos-vivos que vagam em bandos com o único intuito de alimentarem-se de cérebros. Agora eu vou dizer uma coisa muito séria para vocês, caríssimos amigos: ISTO TAMBÉM JÁ ACONTECEU!

O mundo hoje alcançou 7.000.000.000 (sete bilhões) de habitantes. Somos, definitivamente, a espécie animal com crescimento mais descontrolado da história do planeta. O mundo inteiro, inclusive os chamados países desenvolvidos, sofre com desemprego, problemas de educação, de alimentação e de saúde para todos.

A comunicação mundial se dá de modo imediato e fragmentado, todos têm acesso a tudo e ninguém sabe de nada. Boa parte das pessoas apenas reproduz o que é dito por outros. Mesmo as academias vêm padecendo ao tentar identificar o que é produção e o que é reprodução.

Cada vez mais pessoas se aliam em grupos sejam políticos, religiosos, de torcedores de algum time, de fãs de algum artista, de gente que segue alguma dieta alimentar...

A verdade que meus olhos veem através das lentes de meus óculos é triste. O mundo está dominado por zumbis. Por seres sem capacidade de discernimento que vivem de comer os cérebros alheios e de transformar todos em seus iguais... O que fazer em um mundo assim?

Eu resolvi virar professor. Sei que não vou salvar o mundo do apocalipse já instalado. Minha missão não é tão bonita quanto a de meus antecessores. Eu estou aqui para tentar ajudar a manter o cérebro de outras pessoas ainda em suas funções, por mais que elas sejam mordidas pelos zumbis da televisão sensacionalista, da internet procrastinadora, das músicas que transmitem ideia nenhuma.

Eu estou aqui para treinar sobreviventes.