quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Composição

E eu, que não sou de escrever canções
Quando o faço, ainda são para você

Mesmo depois de tanto tempo,
Mesmo já não mais te conhecendo,
Mesmo nunca mais nos encontrando,
Tudo o que o meu coração lembra e sente
Me mostra o que, de algum modo, me faz vivo
E não sei se quero esquecer, nem sei se consigo

Porque eu, que não sou de escrever canções
Quando o faço, ainda são para você

Mesmo tão longe das ruas que conhecem nossa história
E de tudo aquilo que um dia fez parte de nós
Ainda me vêm teus olhos na memória e ainda ouço a tua voz
E o presente, que tento fazer com que seja novo
O que já foi ainda é e será, mas sei que, entretanto,
Nada disso importará muito quando ou se eu voltar

Mas eu, que não sou de escrever canções
Quando o faço, ainda são para você

domingo, 29 de janeiro de 2012

da ausência

Sinto falta de você passar de repente, me olhar, sorrir e dizer oi.
Sinto falta de você passar de repente, me olhar e sorrir.
Sinto falta de você passar de repente e me olhar.
Sinto falta de você passar de repente.
Sinto falta de você passar.
Sinto falta de você.
Sinto falta.

Até mesmo da mera possibilidade.

(28.01.2012)

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

EU NUNCA

Eu nunca mais vou dizer que te amo.
Eu nunca mais direi nada que seja parecido, seja em que língua for.
Eu sequer demonstrarei por gestos ou olhares.
[dose]

Eu nunca mais escreverei poemas, cartas, tampouco um bilhete.
Nem mesmo dedicarei ou cantarei ou comporei temas ou canções
que evoquem você ou qualquer lembrança que eu possa ter.
Muito menos ouvirei ou ainda dançarei contigo aquela canção.
[dose]

Mas você já me conhece o suficiente
para saber das minhas verdades.
E continuará sabendo que, mesmo no silêncio
e até mesmo na omissão,
Eu nunca deixarei de ser aquele a quem você pode recorrer.
Eu nunca deixarei de ser aquele com quem você pode contar.
[sua dose]

O que é não deixará de ser.
Não deixará de ser nunca.
Apenas deixará de ser para sempre.
[brindemos]

Beijo.
Boa noite.
Durma bem.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

TORCIDA

Prever, prevenir, previdência... mesma origem, tão próximas, mas com aplicações tão diversas.
Podemos prever certas coisas e ainda assim sermos imprevidentes. Podemos nos prevenir de tudo justamente para não precisar prever nada. E ainda termos a opção de simplesmente não prever nada, não nos prevenirmos contra nada, sermos imprevidentes em relação a tudo.

E o resultado quase sempre é parecido.

Alguns torcedores em finais de campeonatos têm o costume de levar um cartaz com a seguinte inscrição: “EU JÁ SABIA”. Eu sempre brinco que é aplicável a qualquer resultado, só o que muda é a expressão facial e corporal daquele que segura o tal cartaz.

Às vezes só o que falta em algumas situações é o cartaz. Eu já sabia.

Eu já sabia que aquele show seria ótimo.
Eu já sabia que conseguiria aquele emprego.
Eu já sabia que a viagem daria certo.
Eu já sabia que não deveria ter tomado aquela terceira dose.
Eu já sabia que nunca daria certo entre eu e ela.
Eu já sabia que aquela prova seria difícil assim.

Eu já sabia. Mas às vezes eu sabia e não me preveni. Às vezes eu preferi não saber.

E algumas vezes restam alguns troféus.
Um diploma.
Uma boa lembrança.
Uma memória dolorida.
Uma conta a ser dificilmente parcelada.
Um porta-retratos.
Algo novo e que nunca foi usado que foi direto para um fundo de armário.

Eu já sabia.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Deep

Daquelas sensações que você sabe que só vai ter uma vez na vida.

Quando bem mais novo, com aspirações a poeta, escrevia sobre o que ainda não havia vivido, era tudo não mais que idealizações, uma destas era sobre os cabelos da mulher que eu sonhava um dia ter, que em meus jovens anseios eram em ondas como um mar denso e noturno no qual eu não me importaria de navegar, me perder e me afogar. Culpa das grandes divas que me extasiavam (em especial a Gilda de Rita e a Mulher-Gato de Julie).

Passado certo tempo eu me dei conta de que tal perfeição era truque cinematográfico, mas aí a realidade já se tornara bem mais interessante. Nada como os cabelos desgrenhados da mulher desejada durante e após o amor, superando qualquer produção que elas façam ou qualquer intervenção térmica ou química que alguém (que deve odiar as mulheres) invente e que elas caiam nessa (muitas vezes chega a dar até tristeza)...

Até que, lá pelas tantas, você a vê e lá está a densidade, lá estão as ondas, lá está a escuridão. Pior (ou melhor) que isso, lá está aquele caimento que parece editado, parece proposital, tamanha a medida do mistério de ocultar e revelar um rosto que toca a perfeição. Truque de cinema? Não, tudo isso acontece diante de seus olhos, em um efeito que não pode ser classificado como menos que hipnótico. E você se encanta, e há o encontro. O roteirista só pode estar maluco, mas não há roteiro.

Durante tal encontro, você a vê por ângulos que sua mente pueril só tentava imaginar e que seus olhos adultos já não esperavam mais ver e, durante instantes, suas mãos o levam a navegar, a se perder e se afogar em um mar negro, noturno, de ondas suaves e perfeitas que as estrelas do celuloide só eram capazes com equipes cuidando de seus efeitos.

Então você sabe que atingiu um ponto que poucas pessoas conseguem: a realização. Ainda que nunca mais a tenha, ainda que nunca mais se repita.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

30 YEARS AFTER MY FIRST APOCALYPSE

A mídia sempre se preocupou com o fim do mundo... Desde os tempos mais antigos, há relatos de previsões sobre tal acontecimento. Durante eras imperou a ideia de alguma grande intervenção divina, afinal a ciência ainda não era algo estabelecido e o homem talvez ainda não se achasse capaz de fazê-lo por si só, até porque ainda eram poucos indivíduos sobre o mundo. Concentrar-me-ei nas épocas e nos medos que presenciei.

Quem foi, como eu, criança no finalzinho dos anos 1970 e em boa parte dos anos 1980 deve se lembrar do grande medo da época: a hecatombe nuclear! A guerra fria mantinha em nós o medo de não haver um amanhã porque alguém das grandes potências _EUA e URSS_ poderia apertar a qualquer minuto o botão que desencadearia a guerra final. Dois filmes estadunidenses, ambos produzidos no ano de 1983 retratam muito bem esse medo: “Jogos de Guerra” (War Games, de John Badham) e “O Dia Seguinte” (The Day After, de Nicholas Meyer), sendo que este segundo causou uma comoção tremenda, foi um verdadeiro choque. Vários músicas populares versavam sobre o assunto que era também recorrente no seriado “Além da Imaginação” (The Twilight Zone), em um dos episódios da época, chamado “Um Pouco de Paz e Tranquilidade” (A Little Peace and Quiet) a protagonista para o tempo no momento em que os primeiros mísseis nucleares são lançados (perdão pelo spoiler). Mais aterrorizante que propriamente pacifista. Agradecimentos a Wes Craven.

Já no final dos anos 1980 até os anos 1990 termina a guerra fria, cai o muro de Berlim, Gorbachev desmonta a União Soviética e começa a revolução tecnológica. O mundo se via diante de um novo dilema: o avanço tecnológico industrial dava saltos cada vez maiores, pessoas perdem seus empregos para sistemas automatizados, o computador pessoal invade as casas, o conceito de redes mundiais de comunicação digital se estabelece. AS MÁQUINAS DOMINARÃO O MUNDO! Ok, Asimov já pensava nisso em 1950, mas agora a coisa era real! Uma coisa interessante sobre os dois filmes mais emblemáticos dessa época é que eles só fizeram sucesso realmente muito tempo depois de produzidos, passando boa parte de suas “vidas” sendo considerados cult até se tornarem populares com o aparecimento do videocassete e o novo mercado de videolocadoras, que facilitou o acesso de vários filmes ao grande público. São eles “Blade Runner – Caçador de Androides” (Ridley Scott, 1982) e “O Exterminador do Futuro” (The Terminator, de James Cameron, 1984).

A passagem do século XX para o XXI trouxe consigo uma nova preocupação mundial: o desequilíbrio ecológico. Mais uma vez algo que já era falado desde os anos 60 só que, assim como a paranoia tecnológica, o ser humano percebeu que a coisa era pra valer e não apenas chilique de um bando de hippies cabeludos. Filmes-símbolo: “O Dia Depois de Amanhã” (The Day After Tomorrow, de Roland Emmerich, 2004) e o documentário de Al Gore, “Uma Verdade Inconveniente” (An Inconvenient Truth, 2006). Vale dizer que Al Gore ganhou o Nobel da Paz em 2007 devido a seus esforços pela divulgação da causa ecológica. Outros autores exploravam outras formas “naturais” de destruição do mundo... alguns pensavam em um asteroide, como no tempo dos dinossauros, outro em vulcões ou maremotos... sempre “a natureza se vingando” (diria Fernando Pessoa sobre isso “Só a Natureza é divina, e ela não é divina.../ Se falo dela como de um ente/ É que para falar dela preciso usar da linguagem dos homens/ Que dá personalidade às cousas, E impõe nome às cousas.”), alguns inventavam doenças e epidemias, mas estas eram sempre controladas, a Natureza não.

E cá estamos nós já na segunda década do século XXI, os anos 10, e eis que ressurge com força extrema algo que era uma temática para lá de alternativa e restrita aos filmes “B” de terror dos anos 60 aos 80: o apocalipse zumbi! Mortos-vivos que vagam em bandos com o único intuito de alimentarem-se de cérebros. Agora eu vou dizer uma coisa muito séria para vocês, caríssimos amigos: ISTO TAMBÉM JÁ ACONTECEU!

O mundo hoje alcançou 7.000.000.000 (sete bilhões) de habitantes. Somos, definitivamente, a espécie animal com crescimento mais descontrolado da história do planeta. O mundo inteiro, inclusive os chamados países desenvolvidos, sofre com desemprego, problemas de educação, de alimentação e de saúde para todos.

A comunicação mundial se dá de modo imediato e fragmentado, todos têm acesso a tudo e ninguém sabe de nada. Boa parte das pessoas apenas reproduz o que é dito por outros. Mesmo as academias vêm padecendo ao tentar identificar o que é produção e o que é reprodução.

Cada vez mais pessoas se aliam em grupos sejam políticos, religiosos, de torcedores de algum time, de fãs de algum artista, de gente que segue alguma dieta alimentar...

A verdade que meus olhos veem através das lentes de meus óculos é triste. O mundo está dominado por zumbis. Por seres sem capacidade de discernimento que vivem de comer os cérebros alheios e de transformar todos em seus iguais... O que fazer em um mundo assim?

Eu resolvi virar professor. Sei que não vou salvar o mundo do apocalipse já instalado. Minha missão não é tão bonita quanto a de meus antecessores. Eu estou aqui para tentar ajudar a manter o cérebro de outras pessoas ainda em suas funções, por mais que elas sejam mordidas pelos zumbis da televisão sensacionalista, da internet procrastinadora, das músicas que transmitem ideia nenhuma.

Eu estou aqui para treinar sobreviventes.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

ASSIM

É assim

Como as musas inspiram,
Como os poetas versam,
Como os menestréis cantam,
Como os idelistas sonham,
Como deveria ser.

Só que não é.

Ainda.

Talvez nunca o seja.

Mas lá, onde deveria ser
É
E acontece
Como deveria ser.

Assim.