sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

TORCIDA

Prever, prevenir, previdência... mesma origem, tão próximas, mas com aplicações tão diversas.
Podemos prever certas coisas e ainda assim sermos imprevidentes. Podemos nos prevenir de tudo justamente para não precisar prever nada. E ainda termos a opção de simplesmente não prever nada, não nos prevenirmos contra nada, sermos imprevidentes em relação a tudo.

E o resultado quase sempre é parecido.

Alguns torcedores em finais de campeonatos têm o costume de levar um cartaz com a seguinte inscrição: “EU JÁ SABIA”. Eu sempre brinco que é aplicável a qualquer resultado, só o que muda é a expressão facial e corporal daquele que segura o tal cartaz.

Às vezes só o que falta em algumas situações é o cartaz. Eu já sabia.

Eu já sabia que aquele show seria ótimo.
Eu já sabia que conseguiria aquele emprego.
Eu já sabia que a viagem daria certo.
Eu já sabia que não deveria ter tomado aquela terceira dose.
Eu já sabia que nunca daria certo entre mim e ela.
Eu já sabia que aquela prova seria difícil assim.

Eu já sabia. Mas às vezes eu sabia e não me preveni. Às vezes eu preferi não saber.

E algumas vezes restam alguns troféus.
Um diploma.
Uma boa lembrança.
Uma memória dolorida.
Uma conta a ser dificilmente parcelada.
Um porta-retratos.
Algo novo e que nunca foi usado que foi direto para um fundo de armário.

Eu já sabia.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Deep

Daquelas sensações que você sabe que só vai ter uma vez na vida.

Quando bem mais novo, com aspirações a poeta, escrevia sobre o que ainda não havia vivido, era tudo não mais que idealizações, uma destas era sobre os cabelos da mulher que eu sonhava um dia ter, que em meus jovens anseios eram em ondas como um mar denso e noturno no qual eu não me importaria de navegar, me perder e me afogar. Culpa das grandes divas que me extasiavam (em especial a Gilda de Rita e a Mulher-Gato de Julie).

Passado certo tempo eu me dei conta de que tal perfeição era truque cinematográfico, mas aí a realidade já se tornara bem mais interessante. Nada como os cabelos desgrenhados da mulher desejada durante e após o amor, superando qualquer produção que elas façam ou qualquer intervenção térmica ou química que alguém (que deve odiar as mulheres) invente e que elas caiam nessa (muitas vezes chega a dar até tristeza)...

Até que, lá pelas tantas, você a vê e lá está a densidade, lá estão as ondas, lá está a escuridão. Pior (ou melhor) que isso, lá está aquele caimento que parece editado, parece proposital, tamanha a medida do mistério de ocultar e revelar um rosto que toca a perfeição. Truque de cinema? Não, tudo isso acontece diante de seus olhos, em um efeito que não pode ser classificado como menos que hipnótico. E você se encanta, e há o encontro. O roteirista só pode estar maluco, mas não há roteiro.

Durante tal encontro, você a vê por ângulos que sua mente pueril só tentava imaginar e que seus olhos adultos já não esperavam mais ver e, durante instantes, suas mãos o levam a navegar, a se perder e se afogar em um mar negro, noturno, de ondas suaves e perfeitas que as estrelas do celuloide só eram capazes com equipes cuidando de seus efeitos.

Então você sabe que atingiu um ponto que poucas pessoas conseguem: a realização. Ainda que nunca mais a tenha, ainda que nunca mais se repita.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

30 YEARS AFTER MY FIRST APOCALYPSE

A mídia sempre se preocupou com o fim do mundo... Desde os tempos mais antigos, há relatos de previsões sobre tal acontecimento. Durante eras imperou a ideia de alguma grande intervenção divina, afinal a ciência ainda não era algo estabelecido e o homem talvez ainda não se achasse capaz de fazê-lo por si só, até porque ainda eram poucos indivíduos sobre o mundo. Concentrar-me-ei nas épocas e nos medos que presenciei.

Quem foi, como eu, criança no finalzinho dos anos 1970 e em boa parte dos anos 1980 deve se lembrar do grande medo da época: a hecatombe nuclear! A guerra fria mantinha em nós o medo de não haver um amanhã porque alguém das grandes potências _EUA e URSS_ poderia apertar a qualquer minuto o botão que desencadearia a guerra final. Dois filmes estadunidenses, ambos produzidos no ano de 1983 retratam muito bem esse medo: “Jogos de Guerra” (War Games, de John Badham) e “O Dia Seguinte” (The Day After, de Nicholas Meyer), sendo que este segundo causou uma comoção tremenda, foi um verdadeiro choque. Vários músicas populares versavam sobre o assunto que era também recorrente no seriado “Além da Imaginação” (The Twilight Zone), em um dos episódios da época, chamado “Um Pouco de Paz e Tranquilidade” (A Little Peace and Quiet) a protagonista para o tempo no momento em que os primeiros mísseis nucleares são lançados (perdão pelo spoiler). Mais aterrorizante que propriamente pacifista. Agradecimentos a Wes Craven.

Já no final dos anos 1980 até os anos 1990 termina a guerra fria, cai o muro de Berlim, Gorbachev desmonta a União Soviética e começa a revolução tecnológica. O mundo se via diante de um novo dilema: o avanço tecnológico industrial dava saltos cada vez maiores, pessoas perdem seus empregos para sistemas automatizados, o computador pessoal invade as casas, o conceito de redes mundiais de comunicação digital se estabelece. AS MÁQUINAS DOMINARÃO O MUNDO! Ok, Asimov já pensava nisso em 1950, mas agora a coisa era real! Uma coisa interessante sobre os dois filmes mais emblemáticos dessa época é que eles só fizeram sucesso realmente muito tempo depois de produzidos, passando boa parte de suas “vidas” sendo considerados cult até se tornarem populares com o aparecimento do videocassete e o novo mercado de videolocadoras, que facilitou o acesso de vários filmes ao grande público. São eles “Blade Runner – Caçador de Androides” (Ridley Scott, 1982) e “O Exterminador do Futuro” (The Terminator, de James Cameron, 1984).

A passagem do século XX para o XXI trouxe consigo uma nova preocupação mundial: o desequilíbrio ecológico. Mais uma vez algo que já era falado desde os anos 60 só que, assim como a paranoia tecnológica, o ser humano percebeu que a coisa era pra valer e não apenas chilique de um bando de hippies cabeludos. Filmes-símbolo: “O Dia Depois de Amanhã” (The Day After Tomorrow, de Roland Emmerich, 2004) e o documentário de Al Gore, “Uma Verdade Inconveniente” (An Inconvenient Truth, 2006). Vale dizer que Al Gore ganhou o Nobel da Paz em 2007 devido a seus esforços pela divulgação da causa ecológica. Outros autores exploravam outras formas “naturais” de destruição do mundo... alguns pensavam em um asteroide, como no tempo dos dinossauros, outro em vulcões ou maremotos... sempre “a natureza se vingando” (diria Fernando Pessoa sobre isso “Só a Natureza é divina, e ela não é divina.../ Se falo dela como de um ente/ É que para falar dela preciso usar da linguagem dos homens/ Que dá personalidade às cousas, E impõe nome às cousas.”), alguns inventavam doenças e epidemias, mas estas eram sempre controladas, a Natureza não.

E cá estamos nós já na segunda década do século XXI, os anos 10, e eis que ressurge com força extrema algo que era uma temática para lá de alternativa e restrita aos filmes “B” de terror dos anos 60 aos 80: o apocalipse zumbi! Mortos-vivos que vagam em bandos com o único intuito de alimentarem-se de cérebros. Agora eu vou dizer uma coisa muito séria para vocês, caríssimos amigos: ISTO TAMBÉM JÁ ACONTECEU!

O mundo hoje alcançou 7.000.000.000 (sete bilhões) de habitantes. Somos, definitivamente, a espécie animal com crescimento mais descontrolado da história do planeta. O mundo inteiro, inclusive os chamados países desenvolvidos, sofre com desemprego, problemas de educação, de alimentação e de saúde para todos.

A comunicação mundial se dá de modo imediato e fragmentado, todos têm acesso a tudo e ninguém sabe de nada. Boa parte das pessoas apenas reproduz o que é dito por outros. Mesmo as academias vêm padecendo ao tentar identificar o que é produção e o que é reprodução.

Cada vez mais pessoas se aliam em grupos sejam políticos, religiosos, de torcedores de algum time, de fãs de algum artista, de gente que segue alguma dieta alimentar...

A verdade que meus olhos veem através das lentes de meus óculos é triste. O mundo está dominado por zumbis. Por seres sem capacidade de discernimento que vivem de comer os cérebros alheios e de transformar todos em seus iguais... O que fazer em um mundo assim?

Eu resolvi virar professor. Sei que não vou salvar o mundo do apocalipse já instalado. Minha missão não é tão bonita quanto a de meus antecessores. Eu estou aqui para tentar ajudar a manter o cérebro de outras pessoas ainda em suas funções, por mais que elas sejam mordidas pelos zumbis da televisão sensacionalista, da internet procrastinadora, das músicas que transmitem ideia nenhuma.

Eu estou aqui para treinar sobreviventes.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

ASSIM

É assim

Como as musas inspiram,
Como os poetas versam,
Como os menestréis cantam,
Como os idelistas sonham,
Como deveria ser.

Só que não é.

Ainda.

Talvez nunca o seja.

Mas lá, onde deveria ser
É
E acontece
Como deveria ser.

Assim.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Minha princesinha

A arte que exprime tudo aquilo gostaríamos de ter e ter tido,
de ser e ter sido,
de viver e ter vivido
e nos evocando as lembranças que ficaram guardadas
para serem passadas em um futuro que nunca chegou a acontecer
e todo o amor que nunca chegou a ser realizado.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Sintática

Gosto.

[análise: sujeito desinencial ou oculto; verbo transitivo: carece de complemento; transitivo indireto: carece de elemento de ligação]

Mesmo faltando tanta coisa: Gosto.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

OLHOS

“Esta fonte já está seca!”, grita um dos tantos eus que me habitam.

Tal improdutividade faz com que nada mais verta e que o que ainda existe de resto, se ainda existir, seja impróprio. Falta ainda determinar a causa da inutilização deste olho d’água; pode ter sido tanta coisa, como um grande período de seca, poluição, o uso inadvertido de seus recursos ou até um excesso de permeabilidade da terra. Muitas vezes o conjunto de diversos fatores. Às vezes é melhor não saber.

...

A catarata que me embota os olhos da alma turva tanto a percepção do que está à minha frente quanto a expressão de tudo o que um dia eu já tenha sentido, mas a cegueira me conduz a estar mais atento aos outros sentidos, em especial o tato e o paladar para o sentir do frescor e do gosto de águas que jorram de outras fontes em tanto volume e limpidez que torna-se impossível contê-las e só me resta deixar-me levar por esta nova catarata.

...

Minha miopia embaça minha visão desde tanto tempo que não tenho como saber o que eu seria sem ela. Será uma vantagem tão grande assim prescindir de lentes para perceber os contornos de tudo que nos é distante? Ora, mas já não sabemos que contornos são ilusões? Ainda há o detalhe de que nos aproximamos para ver bem aquilo que queremos ver bem, não somos inadvertidamente invadidos por visões muito extremamente definidas inclusive daquilo que não nos interessa.

Mesmo meus olhos no espelho, quando tenho que me aproximar bem para ver minha pupila, que não posso ver sem o auxílio de um espelho. Que não posso delinear se o espelho estiver distante.




(para Ana, meu espelho renovado e melhor, minha pupila, minha parceira, meu abraço e minha amiga)

sábado, 3 de setembro de 2011

SÃO PAULO

São Paulo é uma cidade imensa e cinza. Saindo do Centro e indo para a Freguesia do Ó pode-se ver a cidade se afastando. São prédios e prédios e prédios e mais prédios; todos altos, muito altos, parece que um querendo ser mais alto que o outro. Não há como não se assombrar com o tamanho de tudo nessa megalópole tupiniquim.

São Paulo parece padecer do mal desses garotos muito ricos que têm famílias sem história e compram mansões, coberturas e carros esportivos velozes (talvez seja para compensar também alguma inferioridade fálica, visto o sem-número de espigões erigidos em seu meio).

As proporções de tudo são enormes. Uma teia sem fim de ruas e ruas e ruas se entrecortando. Ruas e ruas subindo e descendo. Literalmente subindo e descendo, descendo e subindo. Não há uma rua plana em São Paulo. Fico imaginando que os pedreiros paulistanos sejam verdadeiros experts no uso do nível de bolha e do fio de prumo. Parece que a falta de contato com o mar deixa a cidade assim. Até nisso parece haver algum tipo de compensação: já que não há o mar, as ruas formam ondas; já que as ondas são de concreto e asfalto, há skatistas onde deveria haver surf.

A imensidão de concreto fez também com que eu descobrisse pelo menos umas vinte novas tonalidades de cinza que meus olhos não sabiam existir. Alguns amigos ainda insistem que São Paulo é a cidade perfeita para o meu estilo de vida. Talvez até estejam certos m alguns aspectos, mas falta o essencial. Falta a sutileza da diferença.

Certa campanha turística estigmatizou São Paulo como uma espécie de Nova York dos trópicos. “A cidade que nunca dorme”. Ela dorme, e dorme cedo! Mas... Ah! A noite paulistana. Seus restaurantes, bares, boates... Tudo é feito aos moldes de algum outro lugar. Uma cidade feita por imigrantes internos e externos para turistas e migrantes internos e externos não se sentirem totalmente “lá”. Aliás, até duvido que esse “lá” realmente exista. Se existir, deve estar oculto no meio da imensidão imponente e gris.

Me vem a canção Sampa, de Caetano Veloso, à cabeça para tentar falar das moças de São Paulo. A “deselegância” não é discreta. É over. Overdrive, overloaded, overfashioned – São Paulo fala inglês quando convém e quando não convém – mas as meninas são lindas. Todas. As meninas de família, as burguesinhas entediadas, as alternativas, as proletárias e as putas das esquinas. Essas últimas, por sinal, merecem uma abordagem mais aprofundada. São lindas demais, mas não são paulistanas de
origem. São mineiras, goianas, baianas, mato-grossenses que buscam em São Paulo oportunidades de vida que acabam não encontrando ou, até mesmo, encontram ao estudar em universidades, mas acabam fazendo das ruas seu modo de sustentar temporariamente tão caro empreendimento. Mas como são belas as meninas da vida em São Paulo! 

Tudo ali é sexo. Geografia, arquitetura, modo de vida e sociedade. A cada quarteirão, um grande cinema pornô ou um prostíbulo ou um “inferninho”. Às vezes, vários no mesmo quarteirão. Quase sempre de modo caoticamente distribuído, embora se diga que há áreas destinadas a tal entretenimento. Mais do que sexo, São Paulo é gay. Mais! São Paulo é pansexual! Qualquer ambiente em São Paulo é sui generis. Não há limites. Poder-se-ia dizer que há uma ponta de preconceito em minhas palavras, mas garanto que não. Chega a ser um pouco o contrário. Parece um contra-senso  (ou, no mínimo, pouco elegante) afirmar-se exclusivamente heterossexual por lá. 

Gostaria de voltar a falar da arquitetura paulistana, já que o assunto é sexo. É uma cidade de prédios que se convertem em falos homéricos e largos e praças onde se pode mergulhar. Mas os prédios são inúmeros e os largos são poucos. A cidade com curvas e ondas sufoca-se em meio a tantos sinais verticais desejantes de manifestar sua imponência e magnitude. Há o maior de todos, estrategicamente também um símbolo do poder econômico desse lugar: o prédio do Banespa, o mais paulista dos bancos. Do alto de sua torre pode-se ver todo o centro e além, todos os prédios que
não conseguem ser tão altos e ricos quanto ele e grita de uma maneira aguda e vertiginosa toda a sua superioridade: “O meu é maior que o de todos vocês!”. Mas meu jocoso espírito carioca pergunta: “Dá para ver tudo mesmo?”, “Sim, tudo!”, “Dá para ver o mar?” e uma careta de meu interlocutor responde o meu riso e eu me encho de filosofia litorânea pensando: “Para que uma visão tão vertical que se ela não pode deitar-se no aconchego molhado das ondas?”. E uso isso como alternativa à minha galopante acrofobia para não escalar tal torre.

Nesse ambiente claustrofóbico e impositivo, a população parece fugir ou querer se esconder. O espaço para essa fuga encontra-se no subsolo. Os paulistas andam de metrô. Uma extensa e intrincada rede metroviária corta e entrecorta os subterrâneos urbanos. Há um minhocário humano embaixo de São Paulo. Se do alto de seus prédios as pessoas parecem formigas, os metrôs são os formigueiros “por onde entra e sai o mundo”, onde se transita para lá e para cá em velocidade vigorosa.

Assim como as formigas, há divisões nos tipos de cidadãos. São Paulo fervilha de tribos urbanas em categorias e subcategorias diversas. Há engravatados e proletários. Paulistanos e baianos. Hip-hoppers e rockeiros. Dentre os rockeiros (categoria da qual posso falar com alguma propriedade) há punks, headbangers, indies, emos, góticos. Todos absolutamente diferenciados em suas tamanhas semelhanças. A cidade se propõe – ou, ao menos, se declara – cosmopolita. Mas as divisões são claras. Bairros de judeus, de italianos, de “japas”, de nordestinos... Não só os bairros, mas também se vê nos centros de consumo (consumo, sim. É um território essencialmente capitalista) e de circulação tais divisões. Não cometerei o exagero de comparar a uma sociedade de castas, mas a mistura ainda está longe.

Paulistanos são esforçados (quando assim o querem) em serem simpáticos. Eles até tentam... Mas são duros como a cidade. Preferem o aperto de mão ao abraço. Dão só um beijo (como pode eles desconhecerem a funcionalidade social do “um-dois” ao cumprimentar?). O paulistano só é realmente afável com quem lhes é muito querido. Aí eles abraçam, acolhem. Só continuam desconhecendo o “um-dois” na hora de dar beijos... Não se pode forçar tanto assim a natureza... Nisso eu tenho que reverenciar os “meus” paulistas. Certamente tenho muita sorte em lhes ser de grande estima e eles são mestres na arte do receber, ou, para minha felicidade, me receber.

São Paulo merece mais que apenas uma crônica ou uma canção; seu espaço seria um blog, talvez o MySpace ou algum outro meio multimídia, uma enciclopédia em DVD ROM, mas, seja o que for, há que ser moderno, grande e, se possível, vertical.


fevereiro de 2007

domingo, 10 de julho de 2011

POEIRA II

Reminiscências de minha alma
Que forçosamente encontra raízes no chão rachado
Como é também rachado
O asfalto mal-cuidado da cidade onde vivo
Como também é rachado
O concreto mal-engendrado do prédio onde moro
Como estão também rachados
Os azulejos das paredes onde me abrigo

Uma crosta de poeira seca que vem do vento
Que seca e fere o interior de minhas narinas
Como a nuvem de poeira que não se dissipa
Na poluição da inversão térmica
Onde sequer há vento
Quando insisto em empurrar para dentro de mim
Ainda mais de fumaça seca de cigarros

Reminiscências de minha alma
Que me forçam olhar em volta e não ver mais nada
Apesar de todos os barulhos, cheiros e olhos que me cercam

Não, não chega a ser deserto
É tão somente sertão

(2004)

segunda-feira, 23 de maio de 2011

ASSOMBRAÇÕES

Essa é uma casa mal-assombrada
habitada por um espírito,
Sombras de um passado e
cômodos abandonados
E os fantasmas
que ventam nas minhas janelas
no outono e na primavera
não me contam nada
que eu já não soubesse
nas outras estações

As vozes e aparições
que preenchem a casa diariamente
não me fazem companhia,
não opinam,
mas interferem

Cada cômodo respira
ofega
arfa
chia
O quarto fechado
o banheiro pinho
A cozinha com a louça
há tanto tempo que já cheira
A sala fumaça
cigarro
As roupas acumuladas
a serem lavadas
porque não há mais porque usá-las
limpas
Lençóis

Maçanetas que não abrem
Portas que não fecham
Janelas
Basculantes
um ou dois vidros quebrados

Essa é uma casa mal-assombrada
Habitada por um fantasma
fumaça
lençóis
ruídos
interferência
E os fantasmas que cantam
por entre os vidros quebrados
dessas janelas
não me ventam nada
que eu já não soubesse

(2005)

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Praticidade (ou "o que eu penso sobre o que é romance de verdade")

Andando pela rua, com a barra da calça molhada por poças d’água, penso se não seria melhor estar acompanhado...
- Oras... mas que tipo de ser humano seria eu se achasse que seria bom para alguém andar na chuva?
Que desejaria que alguém sentisse frio?
Que pensaria que alguém gostaria de molhar os sapatos até as meias apenas para me fazer companhia?
Ah! Que se dane o romantismo e os musicais da Broadway!
Quero o meu amor aquecido, saudável e aconchegado!
Até que eu possa chegar até ela e, estando novamente seco, me aquecer ao seu lado e me aconchegar em seu seio.
Às favas as músicas de saudades e ausências!

Quero a praticidade tranqüila e morna de uma noite de inverno em um ambiente confortável, com um edredom para dois, pipoca (quiçá uma pizza), e um filme na tevê.

Dançar na chuva? Deixo isso para o Gene Kelly e o Fred Astaire... Nos filmes eles nunca ficam resfriados.