quinta-feira, 11 de junho de 2015

ENGANO (?)


"Então acabou tudo mesmo entre a gente?" dificilmente pode ser considerada a frase ideal para ser a primeira do dia, ainda mais se ouvida pelo telefone, equipamento que você pública e notoriamente detesta...

Aí você esboça uma resposta: "Como?", e ela responde do outro lado da linha: "Ah, desculpe, foi engano" e desliga. Você, ainda atordoado pela surpresa, desliga, olha para a tela do celular e percebe que o aparelho não reconhecera o número. É, foi um engano mesmo. Coitado do tal que irá encarar uma DR antes das oito da manhã.

...mas eu acho que conheço aquela voz.

sábado, 23 de maio de 2015

DESENHO N° 1

A princípio, eu também não via. Nem teria como. Mas a indagação era sempre a mesma e a resposta elucidadora era frustrada a quem havia errado e frustrante a quem perguntava, por não conseguir exprimir sua ideia. Não se podia atribuir culpa a nenhum dos lados; duas visões destoantes do mundo e da realidade que precisavam ser mediadas. Mesmo eu compreendendo as razões de ambos, eu não conseguia ver o que nenhum concluía ou demonstrava. Eu não via. Nem teria como.

Eu entendia as vozes encorpadas que respondiam e a insistente que perguntava e depois explicava. Apesar do que se queria que se visse, não era um chapéu; apesar do que se percebia, era uma jiboia. Mas eu não via. Nem teria como.

Foi quando a ação do tempo, lenta como lhe convinha e a situação, crescentemente claustrofóbica e sufocante como deveria ser me deram a clareza da compreensão. Eu não via. Nem teria como.

Eu era o elefante.

quinta-feira, 7 de maio de 2015

O Elevador





"Ora, quem é que não sabe
O que é se sentir sozinho,
Mais sozinho que um elevador vazio?"
(“Blues do Elevador” - Zeca Baleiro)


Já percebia que havia algo estranho... não... não estranho... “diferente” quando pegava aquele elevador, mas não sabia identificar o que seria aquilo, era apenas uma sensação.

Em um primeiro momento, pensava ser só o fato de ser um prédio diferente, talvez a localização tão litorânea causasse algum efeito atmosférico, talvez fosse apenas questão da falta de costume com o prédio... mas não. A sensação permanecia. Algo estava acontecendo.

Com o passar do tempo, prestando mais atenção aos detalhes, percebera que o relógio do elevador nunca estava certo. Algumas vezes a diferença era de alguns minutos, outras vezes era até de horas, chegando a ser um horário de um outro período do dia. Os elementos se somavam, mas ainda não faziam sentido.

Um dia, ao entrar no elevador com o fone no ouvido, escutando um desses rocks setentistas cheios de firulas instrumentais e logo após ter lido uma notícia sobre a série televisiva inglesa Dr. Who, a ideia surge em tom de piada na mente e causa riso. Aquele elevador era uma máquina do tempo. Hahahaha!

Mas... e se houvesse alguma possibilidade de algo tão esdrúxulo ser real? Pensar assim fez com que isso fosse tomando forma na cabeça, não de uma forma preocupante, mas até lúdica. Explicações tão dignas dos piores filmes “B” quantos dos maiores clássicos da ficção científica.

O que não dava para imaginar era que essa ideia quase boba, quase saída de alguma história em quadrinhos era a mais simples verdade. O elevador era uma máquina do tempo, mas só agia sob determinadas condições e tinha algumas peculiaridades.

A viagem no tempo se dava da seguinte forma: Quando as portas do elevador se fechavam, o seu interior e o seu exterior passavam a ser tempos diferentes. Enquanto suas portas estivessem fechadas, seu ambiente interno era levado para um outro período, aleatoriamente. Poderia ser o passado ou o futuro, alguns segundos ou séculos para frente ou para trás. Sempre que parava em algum andar para entrada ou saída de pessoas, ao se abrirem as portas a sincronização com o tempo exterior se restabelecia. O tempo não se distorcia, apenas se transferia para outra época.

Não sabia se mais alguém que pegasse aquele elevador fazia alguma ideia de que isso acontecia ou mesmo se partilhava da mesma sensação. Falar sobre isso seria loucura. Mesmo sem falar, já seria loucura. De todo modo, era melhor pegar o elevador sem mais ninguém.

Mas como aproveitar estar no ano de 1208 ou em 3425 se não havia como sair daquele cubículo cromado de 110 x 90 cm? A única coisa que se podia fazer era respirar e pensar... e torcer para que a viagem não fosse interrompida em nenhum andar em que a porta se abrisse.

Essa subida para o seu apartamento sempre foi um momento muito bem vindo de irrealidade em todo o tempo-espaço.

“Entro no elevador,
Aperto o 12, que é o seu andar,
Não vejo a hora de te reencontrar
(“All Star” - Nando Reis)

quarta-feira, 29 de abril de 2015

Paisagem Urbana


Estava esperando o dia certo para aquela foto, já planejada. Seria o retrato da solidão, da desolação, do isolamento, da perda de contato da hodiernidade construída por concreto, asfalto e tecnologia.

Já havia algumas semanas que ele havia percebido aquele cenário. Uma velha praça no meio de um dos bairros mais movimentados da cidade. Já não era mais frequentada para passeios, só era usada, em uma de suas bordas, a que ficava na avenida principal, como ponto de ônibus, mas seu interior mal era tido como mero corte de caminho para alguns, o que se dirá alguma pausa.

O dia era aquele. Amanheceu muito nublado, o ar estava naturalmente cinza (se é que se pode atribuir à natureza o tanto de poeira suspensa no ar), por volta das 10 horas a luz estaria no ponto certo. Não usaria nenhum desses filtros e calibrações posteriores da fotografia atual. As cores esmaecidas seriam exatamente o que a lente captaria. Seria um refugo orgânico registrado por um equipamento analógico e divulgado em meio digital.

O velho banco de concreto, esquecido e com algumas pichações, era o personagem escolhido para refletir todo esse desamparo.

Lá estava o tripé apontado para o alvo, quase tudo verificado, apenas uma decisão restava a ser tomada na hora, se seria melhor fotografar com o vento dando um efeito de movimento nas folhas ou esperá-las assentarem para o clique. Um único clique.

Então aparece aquele casal, sorridente, com aquele carrinho de bebê decorado com uns balões, tudo muito colorido, mesmo e apesar do cinza do dia. Se sentam, a mulher pega o bebê e o embala e o seu companheiro observa enternecido os dois.

Estragaram tudo: a foto perfeita e o dia.

quarta-feira, 23 de julho de 2014

[Das fugas]




Desculpe, poeta, mas não te acompanharei quando fores desfrutar dos privilégios duvidosos de ser amigo do rei.
Continuarei aqui, sendo povo e sendo, do povo, amigo, lutando por iguais tratamentos a quem quer que seja, amigo do rei ou seu detrator.

Desculpe, poeta, mas não quero, de mão única, escolher uma mulher e uma cama, mas quero também ser por ela escolhido e juntos escolhermos nosso leito.

Veja, poeta, os métodos contraceptivos seguros já existem por aqui, assim como os telefones que, mais que meramente automáticos, ficaram inteligentes (ora, mas veja que avanço!) e as prostitutas, belas ou não, estão também lutando por seus direitos. Alcaloides à vontade? Tem sim senhor! Mas ainda é verdade: só para os amigos do rei.

Desculpe, poeta, eu entendo a sua tristeza, mas caso eu me entediasse ou me entristecesse aí estando, eu de novo fugiria? Ou perderia o sentido e terminaria tudo?
Talvez , para minha miséria, eu já tenha aceitado as tristezas como parte indissociável da vida e não almeje mais ilusões de felicidade, embora ainda corra em busca de paz. E a paz, não a quero só para mim, poeta.

Ser amigo do rei pode ser bom, poeta, mas eu não posso mais jurar fidelidade a uma única Bandeira.

terça-feira, 11 de março de 2014

Sua


Fatos irreais
Ser aquilo que não há.
Haver aquilo que não é.
Continuar sem ter começado.
Concluir sem ter existido.

[disponibilidade] Não ser seu, mas para você.
[empréstimo] Enquanto eu quiser que seja para você.
[concessão] Enquanto eu perceber que você quer que seja.

[elle m’a dit]
“Sou de quem sabe que não sou de ninguém
sou mais sua do que de todos que acham que me têm
pra quem eu volto quando preciso de um colo?
acho que é pra você”
 
Ter consciência sem saber.
Possuir o que não se tem.
Permanecer sem nunca estar.


(com Larissa Alhadef)

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Lembrar

Músicas antigas de nossa história,
Um verso para cada momento.
Todo um repertório para cada fase,
O encantamento, o envolvimento, a comunhão,
A tristeza, o fim e a solidão.

Cada samba, balada, blues ou rock 'n roll,
Cada melodia que evoca uma lembrança,
Todo um cancioneiro a suscitar memórias.
Mas não quero deixar de ouvir.

Só tenho que aprender a dessignificar
Ou até ressignificar

Mas, antes, a desaprender