quarta-feira, 29 de abril de 2015

Paisagem Urbana


Estava esperando o dia certo para aquela foto, já planejada. Seria o retrato da solidão, da desolação, do isolamento, da perda de contato da hodiernidade construída por concreto, asfalto e tecnologia.

Já havia algumas semanas que ele havia percebido aquele cenário. Uma velha praça no meio de um dos bairros mais movimentados da cidade. Já não era mais frequentada para passeios, só era usada, em uma de suas bordas, a que ficava na avenida principal, como ponto de ônibus, mas seu interior mal era tido como mero corte de caminho para alguns, o que se dirá alguma pausa.

O dia era aquele. Amanheceu muito nublado, o ar estava naturalmente cinza (se é que se pode atribuir à natureza o tanto de poeira suspensa no ar), por volta das 10 horas a luz estaria no ponto certo. Não usaria nenhum desses filtros e calibrações posteriores da fotografia atual. As cores esmaecidas seriam exatamente o que a lente captaria. Seria um refugo orgânico registrado por um equipamento analógico e divulgado em meio digital.

O velho banco de concreto, esquecido e com algumas pichações, era o personagem escolhido para refletir todo esse desamparo.

Lá estava o tripé apontado para o alvo, quase tudo verificado, apenas uma decisão restava a ser tomada na hora, se seria melhor fotografar com o vento dando um efeito de movimento nas folhas ou esperá-las assentarem para o clique. Um único clique.

Então aparece aquele casal, sorridente, com aquele carrinho de bebê decorado com uns balões, tudo muito colorido, mesmo e apesar do cinza do dia. Se sentam, a mulher pega o bebê e o embala e o seu companheiro observa enternecido os dois.

Estragaram tudo: a foto perfeita e o dia.

quarta-feira, 23 de julho de 2014

[Das fugas]




Desculpe, poeta, mas não te acompanharei quando fores desfrutar dos privilégios duvidosos de ser amigo do rei.
Continuarei aqui, sendo povo e sendo, do povo, amigo, lutando por iguais tratamentos a quem quer que seja, amigo do rei ou seu detrator.

Desculpe, poeta, mas não quero, de mão única, escolher uma mulher e uma cama, mas quero também ser por ela escolhido e juntos escolhermos nosso leito.

Veja, poeta, os métodos contraceptivos seguros já existem por aqui, assim como os telefones que, mais que meramente automáticos, ficaram inteligentes (ora, mas veja que avanço!) e as prostitutas, belas ou não, estão também lutando por seus direitos. Alcaloides à vontade? Tem sim senhor! Mas ainda é verdade: só para os amigos do rei.

Desculpe, poeta, eu entendo a sua tristeza, mas caso eu me entediasse ou me entristecesse aí estando, eu de novo fugiria? Ou perderia o sentido e terminaria tudo?
Talvez , para minha miséria, eu já tenha aceitado as tristezas como parte indissociável da vida e não almeje mais ilusões de felicidade, embora ainda corra em busca de paz. E a paz, não a quero só para mim, poeta.

Ser amigo do rei pode ser bom, poeta, mas eu não posso mais jurar fidelidade a uma única Bandeira.

terça-feira, 11 de março de 2014

Sua


Fatos irreais
Ser aquilo que não há.
Haver aquilo que não é.
Continuar sem ter começado.
Concluir sem ter existido.

[disponibilidade] Não ser seu, mas para você.
[empréstimo] Enquanto eu quiser que seja para você.
[concessão] Enquanto eu perceber que você quer que seja.

[elle m’a dit]
“Sou de quem sabe que não sou de ninguém
sou mais sua do que de todos que acham que me têm
pra quem eu volto quando preciso de um colo?
acho que é pra você”
 
Ter consciência sem saber.
Possuir o que não se tem.
Permanecer sem nunca estar.


(com Larissa Alhadef)

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Lembrar

Músicas antigas de nossa história,
Um verso para cada momento.
Todo um repertório para cada fase,
O encantamento, o envolvimento, a comunhão,
A tristeza, o fim e a solidão.

Cada samba, balada, blues ou rock 'n roll,
Cada melodia que evoca uma lembrança,
Todo um cancioneiro a suscitar memórias.
Mas não quero deixar de ouvir.

Só tenho que aprender a dessignificar
Ou até ressignificar

Mas, antes, a desaprender

domingo, 2 de fevereiro de 2014

QUOTIDIE

Segundo vários dicionários, um momento pode ser um pequeno intervalo de tempo, de pouca duração, um instante, o tempo em que algo acontece, oportunidade, circunstância, peso, valor, importância. O mais importante é que é um substantivo abstrato e muitas vezes os critérios de avaliação do abstrato passam pelo subjetivo. O momento dura enquanto eu achar que ele ainda não terminou.

Desses momentos, que duram o quanto lhes for cabido durar, tenho três preferenciais na vida quotidiana feminina. Certo, não são momentos meus, mas acabam se tornando. E são momentos triviais, que não se dá muita importância a eles e que inclusive, se perguntadas, elas dirão que não gostam deles.

O primeiro deles é quando ela acorda. Não, não é quando ela dá um pulo desesperadaatrasadaparaotrabalho. É o exato instante em que ela, ainda deitada, cabeça no travesseiro, abre os olhos. Sempre é bonito. Ver isso é fazer qualquer dia começar bem.

O segundo é o momento em que ela sai do banho. Basta isso. Ainda enrolada na toalha, cabelos molhados, ainda com algumas gotas sobre os ombros. Quase um nascimento. Quase um batismo. Sempre uma renovação. Ver isso é conhecer a sensação de estar em casa.

O terceiro momento é na verdade um processo. É quando ela se arruma. Quando ela, sempre ritualisticamente, busca se fazer mais bonita do que já é. Pentes, cremes, maquiagens, batom. Vestido, acessórios, sapatos. Espelho, espelho, espelho. Está bom? Ficou bom? Ficou como o imaginado e esperado? Falta algo? E se mudar isto ou aquilo? Espelho, espelho dela. E meus olhos timidamente extasiados contemplando cada gesto, pincelada, retoque, ajeitada, conferida. Ver isso é presenciar a encarnação das musas.

São momentos muitas vezes corriqueiros, comuns, às vezes até automáticos, mas são delas e ver isso tudo acontecer é fazer parte de sua vida e intimidade.

Outro dia, há poucos dias, ela, inadvertidamente, se arrumou em minha presença. Eu era só um convidado. Eu usei tudo o que eu tinha de razão em mim para não me descuidar e acabar invadindo a sua privacidade, mas sei que não fui completamente eficaz. Temi. Certamente ficaria em babulcios se questionado por que olhava daquele modo. Sem malícias, mas como explicar a essa altura o olhar que não era mais que encantado? Durante o resto da noite inteira eu a vi linda como nunca vira antes. Possivelmente a impressão se dera simplesmente por eu ter visto acontecer e ter aquele momento. A beleza não era o resultado, nem o processo. Era eu ter podido estar lá.

E o sorriso dela ao dizer “estou pronta, vamos?”.

Me recomponho. Respiro fundo. É o único momento que tenho.

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Alice perguntou ao coelho quanto tempo durava “para sempre”, ao que este lhe respondeu que às vezes durava apenas um segundo.

domingo, 22 de dezembro de 2013

[pequena intervenção]

Pouca coisa é tão simultaneamente inútil e engrandecedora da alma humana como a poesia.

Talvez só o futebol aos domingos.

E você, às vezes.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

REFERÊNCIAS II

Ela foi escrita por Charles Bukowski.
Descrita por José de Alencar.
Desenhada por Milo Manara.
Musicada por Arnaldo Baptista.
Cantada por Joey Ramone.

Como ficar imune?

(por que querer ficar imune?)