quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Lembrar

Músicas antigas de nossa história,
Um verso para cada momento.
Todo um repertório para cada fase,
O encantamento, o envolvimento, a comunhão,
A tristeza, o fim e a solidão.

Cada samba, balada, blues ou rock 'n roll,
Cada melodia que evoca uma lembrança,
Todo um cancioneiro a suscitar memórias.
Mas não quero deixar de ouvir.

Só tenho que aprender a dessignificar
Ou até ressignificar

Mas, antes, a desaprender

domingo, 2 de fevereiro de 2014

QUOTIDIE

Segundo vários dicionários, um momento pode ser um pequeno intervalo de tempo, de pouca duração, um instante, o tempo em que algo acontece, oportunidade, circunstância, peso, valor, importância. O mais importante é que é um substantivo abstrato e muitas vezes os critérios de avaliação do abstrato passam pelo subjetivo. O momento dura enquanto eu achar que ele ainda não terminou.

Desses momentos, que duram o quanto lhes for cabido durar, tenho três preferenciais na vida quotidiana feminina. Certo, não são momentos meus, mas acabam se tornando. E são momentos triviais, que não se dá muita importância a eles e que inclusive, se perguntadas, elas dirão que não gostam deles.

O primeiro deles é quando ela acorda. Não, não é quando ela dá um pulo desesperadaatrasadaparaotrabalho. É o exato instante em que ela, ainda deitada, cabeça no travesseiro, abre os olhos. Sempre é bonito. Ver isso é fazer qualquer dia começar bem.

O segundo é o momento em que ela sai do banho. Basta isso. Ainda enrolada na toalha, cabelos molhados, ainda com algumas gotas sobre os ombros. Quase um nascimento. Quase um batismo. Sempre uma renovação. Ver isso é conhecer a sensação de estar em casa.

O terceiro momento é na verdade um processo. É quando ela se arruma. Quando ela, sempre ritualisticamente, busca se fazer mais bonita do que já é. Pentes, cremes, maquiagens, batom. Vestido, acessórios, sapatos. Espelho, espelho, espelho. Está bom? Ficou bom? Ficou como o imaginado e esperado? Falta algo? E se mudar isto ou aquilo? Espelho, espelho dela. E meus olhos timidamente extasiados contemplando cada gesto, pincelada, retoque, ajeitada, conferida. Ver isso é presenciar a encarnação das musas.

São momentos muitas vezes corriqueiros, comuns, às vezes até automáticos, mas são delas e ver isso tudo acontecer é fazer parte de sua vida e intimidade.

Outro dia, há poucos dias, ela, inadvertidamente, se arrumou em minha presença. Eu era só um convidado. Eu usei tudo o que eu tinha de razão em mim para não me descuidar e acabar invadindo a sua privacidade, mas sei que não fui completamente eficaz. Temi. Certamente ficaria em babulcios se questionado por que olhava daquele modo. Sem malícias, mas como explicar a essa altura o olhar que não era mais que encantado? Durante o resto da noite inteira eu a vi linda como nunca vira antes. Possivelmente a impressão se dera simplesmente por eu ter visto acontecer e ter aquele momento. A beleza não era o resultado, nem o processo. Era eu ter podido estar lá.

E o sorriso dela ao dizer “estou pronta, vamos?”.

Me recomponho. Respiro fundo. É o único momento que tenho.

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Alice perguntou ao coelho quanto tempo durava “para sempre”, ao que este lhe respondeu que às vezes durava apenas um segundo.

domingo, 22 de dezembro de 2013

[pequena intervenção]

Pouca coisa é tão simultaneamente inútil e engrandecedora da alma humana como a poesia.

Talvez só o futebol aos domingos.

E você, às vezes.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

REFERÊNCIAS II

Ela foi escrita por Charles Bukowski.
Descrita por José de Alencar.
Desenhada por Milo Manara.
Musicada por Arnaldo Baptista.
Cantada por Joey Ramone.

Como ficar imune?

(por que querer ficar imune?)

domingo, 20 de outubro de 2013

PONTEIROS

O relógio da parede parou há alguns dias e eu sempre esqueço de comprar pilhas novas. Eu durmo, acordo, leio, penso um bocado, anoitece e amanhece.

Pensando bem, o relógio está bem correto em sua contagem do tempo na minha parede.

sábado, 12 de outubro de 2013

DISPOSOFOBIA


Hoje pela manhã eu tive que dar uma boa organizada aqui no meu pequeno espaço.  Papéis, meias, livros, instrumentos musicais, sapatos e camisas por todo canto, como se tivessem sido atirados de um avião sem nem mesmo estarem em um contêiner. Mal se podia caminhar sem o risco de pisar em algo. Não saberia dizer quantos minutos já viraram horas perdidas procurando coisas triviais e óbvias como a carteira de motorista ou minhas chaves.

Há poucos dias uma amiga me falou que um quarto pode até estar arrumado, mas se a cama estiver bagunçada, anula todo o entorno. O efeito também é inversamente correspondente: Se a cama estiver arrumada, a ideia de organização contaminará o ambiente, ainda que haja cuecas jogadas sobre abajures ou em cima do computador. Minha cama estava mesmo merecendo especial atenção, pois já não me dava sequer condições de dormir nela, tamanha a quantidade de coisas acumuladas.

Há quinze anos deixei de dormir no meio da cama, que era de solteiro, para dormir do lado esquerdo (se deitado de costas, olhando para cima). A cama passara a ser de casal.

Já se passaram nove anos desde que eu poderia voltar a dormir no meio da cama, mas não consigo...  Ainda teimo em ocupar unicamente o espaço da esquerda e vou, compulsiva e quase compulsoriamente, ocupando o outro lado com roupas, livros, equipamentos eletrônicos, instrumentos musicais, qualquer coisa que não seja a lembrança de um travesseiro vazio.

Semanas de acúmulos se justificam. A bagunça generalizada me incomoda, mas muito menos que a cama arrumada me dói.

Já passa da hora de ir dormir e eu a encaro e preparo algumas armas. Não posso ir sem recursos. Reiniciarei o processo com algumas provas e canetas e a prateleira móvel. Deixarei o computador portátil a postos também.

Há duas horas estou tentando me convencer de que este texto é só mais uma crônica.

domingo, 6 de outubro de 2013

MUSAS

Ao poeta não são necessários amores, bastam-lhe as musas;
Tampouco lhes são necessárias razões, bastam-lhes um motivo.

Um dia quis ser poeta e ter poucas necessidades.

Hoje não sou mais poeta e as tenho menos ainda.