domingo, 10 de julho de 2011

POEIRA II

Reminiscências de minha alma
Que forçosamente encontra raízes no chão rachado
Como é também rachado
O asfalto mal-cuidado da cidade onde vivo
Como também é rachado
O concreto mal-engendrado do prédio onde moro
Como estão também rachados
Os azulejos das paredes onde me abrigo

Uma crosta de poeira seca que vem do vento
Que seca e fere o interior de minhas narinas
Como a nuvem de poeira que não se dissipa
Na poluição da inversão térmica
Onde sequer há vento
Quando insisto em empurrar para dentro de mim
Ainda mais de fumaça seca de cigarros

Reminiscências de minha alma
Que me forçam olhar em volta e não ver mais nada
Apesar de todos os barulhos, cheiros e olhos que me cercam

Não, não chega a ser deserto
É tão somente sertão

(2004)

segunda-feira, 23 de maio de 2011

ASSOMBRAÇÕES

Essa é uma casa mal-assombrada
habitada por um espírito,
Sombras de um passado e
cômodos abandonados
E os fantasmas
que ventam nas minhas janelas
no outono e na primavera
não me contam nada
que eu já não soubesse
nas outras estações

As vozes e aparições
que preenchem a casa diariamente
não me fazem companhia,
não opinam,
mas interferem

Cada cômodo respira
ofega
arfa
chia
O quarto fechado
o banheiro pinho
A cozinha com a louça
há tanto tempo que já cheira
A sala fumaça
cigarro
As roupas acumuladas
a serem lavadas
porque não há mais porque usá-las
limpas
Lençóis

Maçanetas que não abrem
Portas que não fecham
Janelas
Basculantes
um ou dois vidros quebrados

Essa é uma casa mal-assombrada
Habitada por um fantasma
fumaça
lençóis
ruídos
interferência
E os fantasmas que cantam
por entre os vidros quebrados
dessas janelas
não me ventam nada
que eu já não soubesse

(2005)

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Praticidade (ou "o que eu penso sobre o que é romance de verdade")

Andando pela rua, com a barra da calça molhada por poças d’água, penso se não seria melhor estar acompanhado...
- Oras... mas que tipo de ser humano seria eu se achasse que seria bom para alguém andar na chuva?
Que desejaria que alguém sentisse frio?
Que pensaria que alguém gostaria de molhar os sapatos até as meias apenas para me fazer companhia?
Ah! Que se dane o romantismo e os musicais da Broadway!
Quero o meu amor aquecido, saudável e aconchegado!
Até que eu possa chegar até ela e, estando novamente seco, me aquecer ao seu lado e me aconchegar em seu seio.
Às favas as músicas de saudades e ausências!

Quero a praticidade tranqüila e morna de uma noite de inverno em um ambiente confortável, com um edredom para dois, pipoca (quiçá uma pizza), e um filme na tevê.

Dançar na chuva? Deixo isso para o Gene Kelly e o Fred Astaire... Nos filmes eles nunca ficam resfriados.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Uma Tarde em Higienópolis

http://www.4shared.com/file/XGsqFijc/Uma_Tarde_em_Higienpolis.html


Bate-papos, nerdices, risos e muita música em uma tarde sem fazer nada na casa do Diego, onde estávamos também presentes eu, o JP e o Phill.

As gravações têm ruídos de fundo (havia uns colegas do Diego trabalhando ao lado), algumas interrupções, mas acho que o que vale aqui é o registro desse clima descontraído e com cheiro de cueca!

Particularmente, achei a parte mais divertida do registro a conversa entre a música "Sonhos" (Peninha) e "Moça" (Wando), quando falamos dos compositores.

Espero que vocês, mais que gostar, se divirtam.

Seguem as músicas e créditos:

1. Esperando Aviões (Vander Lee)
2. Mucuripe (Fagner)
3. Lembranças (Kátia)
4. As Dores do Mundo (Jota Quest)
5. Sonhos (Peninha)
6. Moça (Wando)
7. Kriptonita(Ludov)
8. Bicho de Sete Cabeças (Geraldo Azevedo)
9. Trocando em Miúdos (Chico Buarque) + Bandolins (Oswaldo Montenegro)
10. A Voz (Vander Lee)
11. Palavras e Silêncio (Fagner & Zeca Baleiro)
12. Dezembros (Fagner & Zeca Baleiro)
13. Caleidoscópio (Paralamas do Sucesso)
(vinheta)

sábado, 2 de outubro de 2010

RIVAL (por Guilherme Bastilho)

Homem já é bicho bobo sozinho, e quando se junta, então?, fica complicado. Realmente, às dez da manhã de uma segunda-feira, entre um cigarro e outro, esperando alguém que chegaria mas não chegaria, não havia muito o que fazer senão conversar e - naturalmente - falar dos outros. Melhor do que qualquer exercício matinal, ouso dizer até que poderia se tornar uma atividade regular. Um esporte. Um esporte olímpico.

Enquanto esperávamos o bourbon, que no fim das contas não veio, olhávamos e não víamos nada além de gente velha. Bem mais velha. E isso em uma fila. Eu me senti exatamente no meio da História do mundo: somando, provavelmente havia mil anos para cada lado de onde a gente se encontrava. Exceto por uma figura que, justamente por se destacar das demais, chamou a nossa atenção.

Meu amigo é um grande conhecedor de música. E simpático que só. Eu queria ser simpático, mas só finjo ser comunicativo - o que me dá alguns minutos de conversa com qualquer um até o temido silêncio. Mas ele não... E falando de Ednardo, Zé Ramalho, chamou a atenção da moça. Não tão moça assim, é verdade, mas pelas circunstâncias tratava-se de uma garotinha.

E a conversa seguiu. E a tal moça - loira, calças apertadas (por Deus, a mulher foi embalada a vácuo entre uma embalagem e outra de Café Palheta), óculos escuros e certo charme. E a mulher se entrosa, mas se entrosa tanto que em meia hora todos já parecem velhos conhec... Não, velhos não, já existem velhos demais na história. Enfim, parecem se conhecer há muito tempo.

Homem já é bicho bobo sozinho, e quando se junta, então? Foi o que aconteceu. Entre histórias de desilusão que (não) terminariam em um apartamento em Pendotiba, começam aqueles movimentos de sobrancelhas que só nós, canalhas e cafajestes, conhecemos.

- Vai que é tua - disse.

Qualquer incentivo nessas horas é o estopim. Pensar com a cabeça de baixo é sinônimo de que vai dar ruim. Mas o circo está armado. A barraca eu não sei, e sinceramente também não me interessa. Mas encontrar a louraça belzebu provocante, cuja tatuagem bem localizada indicava o mapa da mina, só faltava piscar feito um neon apontando "AQUI!", era questão de tempo.

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O capítulo final da saga é breve. Tão breve quanto a perspicácia da nossa amiga, a quem encontramos cercada por seus amigos da terceira idade. Acho que fiz mal em sentar ao seu lado, pude ter atrapalhado ali uma noite de aventura, mas enfim... Katia Flavia é fatal, e saca da bolsa um álbum de fotografias onde mostra a família. A mente maldosa do homem pensa: "Ela apresentou a todos, filho, filha... Não mencionou o marido".

Não havia mencionado também que era uma porta. Mas hipnotizado pela tatuagem, o músico mostra tudo: "Aquilo é um violão. Aquilo é um baixo. Aquilo é uma bateria. Aquilo é um microfone. Tá vendo esse desenho aqui? O nome disso é casa. O que tem na casa? Cama, sofá, conhece?", e assim por diante.

Até que o papo aconteceu bem. Papo de pouco tempo, mas, papo sério, se fosse mais tempo ia dar ruim mesmo. Eu provavelmente me levantaria - se não caindo em gargalhadas, revoltado com o mundo. O metrô da Cinelândia era logo ali, questão de tempo até eu cometer o ato final: suicídio.

A pepeca foi dançar, chamou o amigo... O amigo foi atrás, atiçado pelas ancas largas da muchacha, que bem poderia ser de Copacabana, é verdade... Podia ser um show do Caetano Veloso. "VOCÊ NÃO ENTENDE NADA" se encaixaria perfeitamente, valendo inclusive para piadas babacas. Se o camarada dissesse que dois e dois são quatro, ouviria um "HÃ?"

O show do Capital Inicial proporcionou alguns bons momentos naquela noite, entre piadas que passaram batidas e algumas explicações e aulas básicas de conhecimento: chão, teto, mesa, cadeira etc. Dinho Ouro Preto, que havia caído do palco e batido a cabeça, deixou de ter a comiseração de Katia Flavia. Tudo porque ela sumiu... Meu amigo se deu mal. Quem disse que a pepeca "sentiu muito pelo Dinho" naquela noite?

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Anseio/Ensaio tardio

Não pertenço a nada disso
Não faço parte de nada disso
Não sou nada disso

Eu apenas fui

Tudo aquilo que surgiria
Tudo aquilo que presumia
Tudo aquilo não havia

O dito
O não dito
O bendito
O maldito
O interdito

Nada daquilo
Tudo isso
O veredicto

Fui tudo aquilo que não houve
Não sou nada disso

E pelo infinito restante
O tempo corre explanando:
Você é o que não há

(Alan Robert e Ana Paula Ruiz)


PS.: Muito obrigado, Ana.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

VIDE O VERSO (ou "Parceria")

O que não sinto, prosa.
O que não penso, verso.
O que construo, prosa.
O que abstraio, verso.
O que categorizo, prosa.
O que fragmento, verso.
O que planejo, prosa.
O que devaneio, verso.
O que aceito, prosa.
O que é conflito, verso.
O que durmo, prosa.
O que descanso, verso.
Onde piso, prosa.
Quando vôo, verso.
O que escrevo, prosa.
O que escrevo, verso.
O que leio, prosa.
O que leio, verso.

Eu, prosa.
Ela, verso.