quarta-feira, 24 de julho de 2013

DO MELHOR PARA ALGUÉM

“Que isso? Eu só coloquei a primeira roupa que vi quando abri o armário!” e lá está ela: saia combinando graciosamente com o bolero rendado, brincos e outros acessórios harmoniosamente afins, um batom que realça vivamente o sorriso que ela sabe que você tanto gosta nela. Claro, tudo obra do mero acaso que previamente dispôs cada elemento como primeiro ao se abrirem as portas do guarda-roupa.

Ele também deixou que o destino escolhesse aquelas meias que caem bem com a camisa, o habitual desalinho nas dobras da calça jeans fazendo uma ponte com as dobras das mangas da camisa... Interessante como esse tal acaso se faz funcionar.

Ambos se encontram, igualmente “sem querer”, apenas uma entre tantas possibilidades. Decidem ir para a casa de um dos dois (de qual, é a vez de um decidir, o destino não pode dar conta de tudo, afinal), aproveitar a oportunidade de estarem um tanto mais juntos, pois não se sabe quando ocorrerá de novo, mesmo que os dois tenham os mesmos compromissos semanais no mesmo local e no mesmo horário. Ao se chegar em casa, o anfitrião se coloca um pouco mais à vontade, se valendo de seus privilégios (a “prerrogativa do capitão”) e estabelecendo o domínio do lugar, mas por que desfazer todo o minucioso preparo do destino? Melhor não. Assim, o “ficar à vontade” resume-se a desabotoar o colarinho ou trocar o salto alto por uma sandália.

Nisto, ocorre a chance de apresentar dotes. Os culinários sempre serão muito bem vindos. Então a pessoa se prepara para cozinhar para a outra. Nada do desleixo habitual de “ah, vai essa faca mesmo” ou panelas barulhando como baterista de rock afinando seu instrumento. Tudo feito com zelo e estudo, mas a providência também dá suas caras neste momento ao lembrar que existe o avental, peça tão cotidianamente  esquecida, mas que ressurge em momentos pontuais como este.

O final desta noite, creio que nós já prevemos: o destino, o acaso, a providência cuidaram para que tudo se dê como deveria se dar e podemos deixar os dois realmente à vontade.

Manhã seguinte, ela se vai, ele a acompanha. Na volta, ele torna a combinar com o aleatório as melhores vias para que tudo se dê novamente. E deixa tudo preparado para ser usado sem escolha. Sem querer. O disco de jazz “esquecido” no aparelho, o vinho especial que foi comprado só porque ouviu falar... Até o avental lavado e pendurado no varal pronto a ser reutilizado, caso a ventura o queira.

Mas nem todo destino se prevê e o ser humano pode se ver refém de imprevistos.

Chove. Chove torrencialmente. E lá está o avental pegando chuva no varal, irreversivelmente molhado como planos que não ficarão secos a tempo.

Ele nunca gostou de chuva, mas _estando com ela_ esta lhe passava a ser muito menos mal vista, pois ela gosta de chuva. Isto pode ser usado “por acaso” também.

_Oi. Que chuva, né? Quer uma carona?

quarta-feira, 17 de julho de 2013

DIVISA

(de Aava Santiago)

A Alan Robert 

Teus olhos que são muito mais que dois
Ou três, ou seis, ou milhares de olhos:

São teus dedos e tuas notas que veem,
teu cabelo que vê, teu blue que vê
Teu francês que vê, tua amargura que vê,
Tua doçura que tudo vê.

Em ti tudo que é visto demora-se
Como demoradas são as memórias de remorso
E a espera por um Redentor.

Por isso teu tempo é outro
Onde os dias são contados somente pelo teu cigarro
Por tua descrença e pelos lamentos da imensa cegueira
Que teus tantos olhos coagem
Pela força da tua precisão.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Dionísio e Atena




O desnudamento da alma, que nos deixa indefesos, expostos às intempéries dos humores, das situações e dos incontroláveis e inevitáveis instintos.

Esta exposição, o que é? “Loucura”, alguns dirão. Possivelmente, eu direi.

Como se despir sem se expor? Como se desnudar e se abrir sem enlouquecer? Como se dar sem se ferir?
E nos fazemos proteções, armaduras, esconderijos. E o que era proteção se torna pudor. O que era segurança se torna medo. E tudo que era razão se torna tabu.

E os limites entre os lados se diluem até a razão e a loucura se confundirem a ponto de serem distintos e a mesma coisa. Ao mesmo tempo. No mesmo lugar.




(sobre o ensaio "Loucura & Juízo", do fotógrafo Meneleu Neto, com os modelos Júnior, Pedro e Janaina)

domingo, 24 de março de 2013

...das caras (sem ordem de importância).

...a da minha mãe quando eu apareço para visitá-la.
...a do meu irmão mais velho quando está de férias.
...a do meu irmão mais novo quando o time dele perde.
...a do meu sobrinho quando digo alguma piadinha sem graça.
...a do meu irmão bebê quando está batendo em minha porta e eu abro.
...a do meu cachorro quando vou soltá-lo da coleira.
...a minha no momento em que saio do banho.
...a dos meus alunos quando eu percebo que estou realmente ensinando algo a eles.
...a do meu melhor amigo quando a gente se vê.
...a da minha filha quando eu concordo com ela (o que é bem raro).
...a do meu pai quando está ocupado trabalhando em algo de verdade.
...a da minha melhor amiga quando eu dou uma de pai dela.
...a do meu avô, quase sempre.

...a dela, que sempre esperou de mim mais do que eu era, mas que um dia eu chegarei a ser.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

CALOR


I – Calor (ou “Empatia”)

            Há os que pregam que coincidências ou paridades são coisas que se constroem e/ou buscam. Eu também penso assim. E não nego ter buscado em alguém tão díspar tais analogias.
            Há ainda os que alardeiam que vemos no outro o que ansiamos ou tememos ver em nós mesmos, como uma espécie de espelho reverso, escolhendo assim amizades e desafetos. Reconheço e admito também isso. Só não saberia mesurar até que ponto fiz isso conscientemente ou em quais pontos ultrapassei limites de bom senso e, em verdade, não trago a mínima pretensão de me escusar por tais disparates.
            E não me surpreenderia se, em algum momento, eu fosse rechaçado.

II – 26° (ou “Encantamento”)

            Uma das razões que move o ímpeto humano é justamente a sua íngreme inclinação por desejar aquilo que lhe é vedado, mas tendo estabelecido esse parâmetro ele pode ser evitado e/ou subvertido. Então aprende-se não a desejar, mas a apreciar sem a necessidade do ter. Talvez ainda reste um quê indefinível entre algum ressentimento, frustração e impotência, mas – superados esses sentimentos menores – resta o alívio pela humanidade e pelo fato de se pertencer a ela em tempo hábil para a apreciação em seu maior esplendor, como um belo quadro ou uma bela foto ou escultura, ou um bom livro em tempo ainda de conhecer seu autor.
            Saber não poder ter tudo é um dos benefícios da maturidade dos mais caros.


08.04.2008

domingo, 2 de dezembro de 2012

MNEMOSINE E LETHE

[das lembranças que nunca foram]

Eu me lembro de quando você não disse que teríamos algo em comum, e aquilo me iluminou.

Me lembro também de quando você não disse que não teríamos mais nada, e aquilo me deixou realmente mal.

Mas me lembro perfeitamente de tudo o que você disse entre os dois momentos. E isso tudo me confunde e me dói e ecoará para sempre, pois a sua voz ainda é das poucas que eu sei diferenciar ao ouvir em meio a tantas outras.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

BRINCADEIRAS

Dúvidas de garoto que permanecem na adultescência:

Até que ponto vale a pena entrar em bola dividida, correr atrás de pipa voada e apostar só com uma bola de gude no bolso?

Conduzir ou mesmo roubar uma bola são coisas que não se nasce sabendo, a gente tem que praticar e, para isso, algumas brincadeiras eram fundamentais. Para aprender a roubar a bola do adversário, nada melhor que o "bobinho", cuja premissa era não ser bobo, ou seja, aguardar e esperar o momento certo em que um dos adversários passasse a bola mais desleixadamente ou perdesse o domínio dela por algum momento. Eu era até bom nisso... Para conduzir, a brincadeira era menos inocente. O "pé na moela", para quem não conhece, consistia em pura e simplesmente encher de chutes quem estivesse com a bola e, diferente do "bobinho", tinha que se chegar ao gol. Aprender a desviar de chutes na canela e a suportá-los era de grande valia. Tudo isso também ensinava a seguinte lição: "bola dividida, NUNCA!". Se a bola está lá, paradinha, só há duas opções: pegá-la antes que alguém pegue ou esperar alguém pegá-la para roubá-la da pessoa. Agora, irem dois (ou mais) para tentar alcançá-la ao mesmo tempo... meu amigo, isso não tem como acabar bem, especialmente se você for um garoto pequeno.

...nunca soube soltar pipa mesmo. Aliás, minto! "Soltá-las" era o que eu fazia de melhor! Ainda tinha a manha de ter que passar cerol... as manobras para não deixar nenhum outro cara torar ou aparar. Mas o problema mesmo era quando voava. "Tem carro da rua!" era o menor dos males. Era aquela horda de moleques que, fossem teus amigos ou não, imediatamente davam a sua pipa como "perdida" e seguia-se a máxima clássica do "achado não é roubado" somada ao "tá na mão", que sempre resultavam em "é meu, já era!". Meio complicado para um garoto pequeno, e exponencialmente pior quando caía na rua de trás... os moleques da rua de trás... Além do quê, correr atrás de pipa voada cansa! Sempre me soou como um dos mais inúteis esforços.

Bola de gude, a sinuca da infância! tudo só depende de sua habilidade, capacidade de estudar as possibilidades, os ângulos, os movimentos do adversário... ou você se garante dentro da sua cabeça ou perde, e a derrota será sempre justa, pois não importa o tamanho total ou mesmo o tamanho do polegar. Entrar em uma partida de mata-mata com só uma bolinha, em búlica com três bolinhas e em triângulo só com duas bolinhas no chão e uma no bolso te davam as mesmas chances de ganhar (ou perder) que qualquer outro. E tinha-se que conhecer tudo, todo tipo de terreno, terra, areia, grama, cimento; se a sua bola da sorte tinha alguma característica especial, tinha que se conhecer bem cada aspecto. Não importava ser uma criança pequena.

Bola de gude sempre foi o meu preferido, e eu sempre descia para jogar com apenas uma no bolso.