quarta-feira, 1 de maio de 2013

Dionísio e Atena




O desnudamento da alma, que nos deixa indefesos, expostos às intempéries dos humores, das situações e dos incontroláveis e inevitáveis instintos.

Esta exposição, o que é? “Loucura”, alguns dirão. Possivelmente, eu direi.

Como se despir sem se expor? Como se desnudar e se abrir sem enlouquecer? Como se dar sem se ferir?
E nos fazemos proteções, armaduras, esconderijos. E o que era proteção se torna pudor. O que era segurança se torna medo. E tudo que era razão se torna tabu.

E os limites entre os lados se diluem até a razão e a loucura se confundirem a ponto de serem distintos e a mesma coisa. Ao mesmo tempo. No mesmo lugar.




(sobre o ensaio "Loucura & Juízo", do fotógrafo Meneleu Neto, com os modelos Júnior, Pedro e Janaina)

domingo, 24 de março de 2013

...das caras (sem ordem de importância).

...a da minha mãe quando eu apareço para visitá-la.
...a do meu irmão mais velho quando está de férias.
...a do meu irmão mais novo quando o time dele perde.
...a do meu sobrinho quando digo alguma piadinha sem graça.
...a do meu irmão bebê quando está batendo em minha porta e eu abro.
...a do meu cachorro quando vou soltá-lo da coleira.
...a minha no momento em que saio do banho.
...a dos meus alunos quando eu percebo que estou realmente ensinando algo a eles.
...a do meu melhor amigo quando a gente se vê.
...a da minha filha quando eu concordo com ela (o que é bem raro).
...a do meu pai quando está ocupado trabalhando em algo de verdade.
...a da minha melhor amiga quando eu dou uma de pai dela.
...a do meu avô, quase sempre.

...a dela, que sempre esperou de mim mais do que eu era, mas que um dia eu chegarei a ser.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

CALOR


I – Calor (ou “Empatia”)

            Há os que pregam que coincidências ou paridades são coisas que se constroem e/ou buscam. Eu também penso assim. E não nego ter buscado em alguém tão díspar tais analogias.
            Há ainda os que alardeiam que vemos no outro o que ansiamos ou tememos ver em nós mesmos, como uma espécie de espelho reverso, escolhendo assim amizades e desafetos. Reconheço e admito também isso. Só não saberia mesurar até que ponto fiz isso conscientemente ou em quais pontos ultrapassei limites de bom senso e, em verdade, não trago a mínima pretensão de me escusar por tais disparates.
            E não me surpreenderia se, em algum momento, eu fosse rechaçado.

II – 26° (ou “Encantamento”)

            Uma das razões que move o ímpeto humano é justamente a sua íngreme inclinação por desejar aquilo que lhe é vedado, mas tendo estabelecido esse parâmetro ele pode ser evitado e/ou subvertido. Então aprende-se não a desejar, mas a apreciar sem a necessidade do ter. Talvez ainda reste um quê indefinível entre algum ressentimento, frustração e impotência, mas – superados esses sentimentos menores – resta o alívio pela humanidade e pelo fato de se pertencer a ela em tempo hábil para a apreciação em seu maior esplendor, como um belo quadro ou uma bela foto ou escultura, ou um bom livro em tempo ainda de conhecer seu autor.
            Saber não poder ter tudo é um dos benefícios da maturidade dos mais caros.


08.04.2008

domingo, 2 de dezembro de 2012

MNEMOSINE E LETHE

[das lembranças que nunca foram]

Eu me lembro de quando você não disse que teríamos algo em comum, e aquilo me iluminou.

Me lembro também de quando você não disse que não teríamos mais nada, e aquilo me deixou realmente mal.

Mas me lembro perfeitamente de tudo o que você disse entre os dois momentos. E isso tudo me confunde e me dói e ecoará para sempre, pois a sua voz ainda é das poucas que eu sei diferenciar ao ouvir em meio a tantas outras.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

BRINCADEIRAS

Dúvidas de garoto que permanecem na adultescência:

Até que ponto vale a pena entrar em bola dividida, correr atrás de pipa voada e apostar só com uma bola de gude no bolso?

Conduzir ou mesmo roubar uma bola são coisas que não se nasce sabendo, a gente tem que praticar e, para isso, algumas brincadeiras eram fundamentais. Para aprender a roubar a bola do adversário, nada melhor que o "bobinho", cuja premissa era não ser bobo, ou seja, aguardar e esperar o momento certo em que um dos adversários passasse a bola mais desleixadamente ou perdesse o domínio dela por algum momento. Eu era até bom nisso... Para conduzir, a brincadeira era menos inocente. O "pé na moela", para quem não conhece, consistia em pura e simplesmente encher de chutes quem estivesse com a bola e, diferente do "bobinho", tinha que se chegar ao gol. Aprender a desviar de chutes na canela e a suportá-los era de grande valia. Tudo isso também ensinava a seguinte lição: "bola dividida, NUNCA!". Se a bola está lá, paradinha, só há duas opções: pegá-la antes que alguém pegue ou esperar alguém pegá-la para roubá-la da pessoa. Agora, irem dois (ou mais) para tentar alcançá-la ao mesmo tempo... meu amigo, isso não tem como acabar bem, especialmente se você for um garoto pequeno.

...nunca soube soltar pipa mesmo. Aliás, minto! "Soltá-las" era o que eu fazia de melhor! Ainda tinha a manha de ter que passar cerol... as manobras para não deixar nenhum outro cara torar ou aparar. Mas o problema mesmo era quando voava. "Tem carro da rua!" era o menor dos males. Era aquela horda de moleques que, fossem teus amigos ou não, imediatamente davam a sua pipa como "perdida" e seguia-se a máxima clássica do "achado não é roubado" somada ao "tá na mão", que sempre resultavam em "é meu, já era!". Meio complicado para um garoto pequeno, e exponencialmente pior quando caía na rua de trás... os moleques da rua de trás... Além do quê, correr atrás de pipa voada cansa! Sempre me soou como um dos mais inúteis esforços.

Bola de gude, a sinuca da infância! tudo só depende de sua habilidade, capacidade de estudar as possibilidades, os ângulos, os movimentos do adversário... ou você se garante dentro da sua cabeça ou perde, e a derrota será sempre justa, pois não importa o tamanho total ou mesmo o tamanho do polegar. Entrar em uma partida de mata-mata com só uma bolinha, em búlica com três bolinhas e em triângulo só com duas bolinhas no chão e uma no bolso te davam as mesmas chances de ganhar (ou perder) que qualquer outro. E tinha-se que conhecer tudo, todo tipo de terreno, terra, areia, grama, cimento; se a sua bola da sorte tinha alguma característica especial, tinha que se conhecer bem cada aspecto. Não importava ser uma criança pequena.

Bola de gude sempre foi o meu preferido, e eu sempre descia para jogar com apenas uma no bolso.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

IDAS E VINDAS


Por você eu iria até Plutão
Iria até Marte
Iria até Vênus
Iria até a Lua

Por você eu iria até a China
Iria até a Austrália
Iria até o Zaire

Por você eu iria até Amsterdã
(só para me entorpecer)
Iria até Paris
(até aí, nenhum sacrifício)
Iria até Roma
(já que todos os caminhos levam até lá
talvez todos os meus levem até você)

Por você eu iria até o Acre
Iria até Roraima
Iria até mesmo a São Paulo

Iria até o centro da cidade
te buscar de ônibus
Iria até o mercado
te comprar café
Até a farmácia
te comprar aspirina

Iria até a sala
abaixar um pouco o som
Iria até a cozinha
te buscar um copo d’água

depois voltaria para o quarto
voltaria para a cama

mas só por você

domingo, 11 de novembro de 2012

UM AMOR PARA SEMPRE

Um amor para sempre, ma belle? Pleno? Mútuo? É isso mesmo?
Melhor que ninguém, você deveria saber que isso não passa de literatura. Romantismo. Século XIX. Feito para entreter senhoras. Que caiu em desuso. Foi suplantando pelo Realismo. E não é o que acontece sempre? O realismo detalhista e esquemático se sobrepondo qualquer ilusão romântica que possamos ou sonhemos ou ousemos ter? Será que vale tanto a pena querer crer nisso?
Quando você usa a sua voz para me dizer aquele pequeno trecho daquela canção _"je préfère, de temps en temps, je préfère le gôut du vin, et le gôut étrange et doux de la peau de mes amants, mais, l'amour... pas pour moi"_ seus olhos grandes me dizem de verdade que você sabe o que existe e o que não.
Um amor para sempre, ma belle? De verdade? É isso mesmo?
E o que a gente está chamando aqui de "pra sempre"? Algo que vá perdurar pela vida inteira? Além disso? Algo que vá nos fazer sofrer quando isso que é efêmero, isso que é transitório, isso que é carne, se for? Estamos falando do quê? De almas gêmeas? Alguma parte não mortal em nosso ser? Transcendência?
Por que você me sugere essas idéias, ma belle? Por que você me faz perguntas que sabe que só podem ser respondidas com outras ainda mais duvidosas e punitivas? Eu confio em você para não me respondê-las. Para me olhar, sorrir e dizer "é isso, né?" e marcarmos um chopp para aproveitarmos o gosto estranho e doce da pele de nossos casuais amantes conhecendo bem o risco disso.
Um amor para sempre, ma belle? Acho que nem na amizade, mas ainda é o que mais se aproxima disso, n'est-ce pas?