quinta-feira, 22 de novembro de 2012

IDAS E VINDAS


Por você eu iria até Plutão
Iria até Marte
Iria até Vênus
Iria até a Lua

Por você eu iria até a China
Iria até a Austrália
Iria até o Zaire

Por você eu iria até Amsterdã
(só para me entorpecer)
Iria até Paris
(até aí, nenhum sacrifício)
Iria até Roma
(já que todos os caminhos levam até lá
talvez todos os meus levem até você)

Por você eu iria até o Acre
Iria até Roraima
Iria até mesmo a São Paulo

Iria até o centro da cidade
te buscar de ônibus
Iria até o mercado
te comprar café
Até a farmácia
te comprar aspirina

Iria até a sala
abaixar um pouco o som
Iria até a cozinha
te buscar um copo d’água

depois voltaria para o quarto
voltaria para a cama

mas só por você

domingo, 11 de novembro de 2012

UM AMOR PARA SEMPRE

Um amor para sempre, ma belle? Pleno? Mútuo? É isso mesmo?
Melhor que ninguém, você deveria saber que isso não passa de literatura. Romantismo. Século XIX. Feito para entreter senhoras. Que caiu em desuso. Foi suplantando pelo Realismo. E não é o que acontece sempre? O realismo detalhista e esquemático se sobrepondo qualquer ilusão romântica que possamos ou sonhemos ou ousemos ter? Será que vale tanto a pena querer crer nisso?
Quando você usa a sua voz para me dizer aquele pequeno trecho daquela canção _"je préfère, de temps en temps, je préfère le gôut du vin, et le gôut étrange et doux de la peau de mes amants, mais, l'amour... pas pour moi"_ seus olhos grandes me dizem de verdade que você sabe o que existe e o que não.
Um amor para sempre, ma belle? De verdade? É isso mesmo?
E o que a gente está chamando aqui de "pra sempre"? Algo que vá perdurar pela vida inteira? Além disso? Algo que vá nos fazer sofrer quando isso que é efêmero, isso que é transitório, isso que é carne, se for? Estamos falando do quê? De almas gêmeas? Alguma parte não mortal em nosso ser? Transcendência?
Por que você me sugere essas idéias, ma belle? Por que você me faz perguntas que sabe que só podem ser respondidas com outras ainda mais duvidosas e punitivas? Eu confio em você para não me respondê-las. Para me olhar, sorrir e dizer "é isso, né?" e marcarmos um chopp para aproveitarmos o gosto estranho e doce da pele de nossos casuais amantes conhecendo bem o risco disso.
Um amor para sempre, ma belle? Acho que nem na amizade, mas ainda é o que mais se aproxima disso, n'est-ce pas?

sábado, 3 de novembro de 2012

TEU CHEIRO NO MEU TRAVESSEIRO


Certos clichês que os poetas já nem mais usam são resguardados somente ainda nas pobres rimas pobres das canções populares, que dependem delas de modo quase escravizado pelo ritmo, pela melodia, tudo isso que exige uma métrica e que se impõe, e é justamente essa escravização dependente dessa pobreza limitadora que torna a expressividade dessas canções muito direta, e é essa diretividade que atinge de modo certeiro os seus ouvintes, de modo ainda mais contundente que os poemas ditos mais elaborados aos seus leitores, autoproclamados mais capazes.

Tudo isto dito, devo revelar que não farei um poema nem comporei uma canção, apenas usarei uma velha e gasta rima para iniciar meu texto, que tratará não apenas das aproximações sonoras dessas palavras.

“Teu cheiro no meu travesseiro”. Toda vez que olho para ele me ocorre essa frase. Acho terrível. Parece trecho de uma daquelas músicas cafonas de dor de cotovelo que meu pai gosta de ouvir ou, ainda pior, algum sertanejo dessas duplas cujo cantor principal parece estar sempre disposto a explodir seus próprios pulmões ou gargantas e, consequentemente, o meu ouvido. Mas enfim, a frase me é inevitável, ela já vem pronta. E o travesseiro é teu, ele apenas mora aqui, com a muito cruel tarefa que eu tinha como minha e que transferi para ele, que é te esperar. E ele é um encarregado muito melhor do que eu a cumprir tal função. Ele fica lá, calado em sua natureza de coisa inanimada, não sabedor nem mesmo de sua destinação natural, que é simplesmente servir de apoio para a cabeça durante o sono. E eu aqui o tornando uma espécie de guardião de minhas poucas memórias e parcas esperanças e nenhum sonho.

Eu só o vejo quando abro aquela parte do armário destinada às coisas que não são tão cotidianas, mas ele está lá, não exatamente ao alcance da minha vista, mas eu o busco. Já aprendi a só tirá-lo de lá em caso de quase certeza. Estou tentando eliminar o “quase”. Acho que é por saber que, neste dia, ele não sairá de lá nunca mais. Antes eu o sacava mais inadvertidamente, o posicionava onde eu achava que ele deveria estar, o que seria o seu lugar real, e tentava buscar o efeito da frase que sempre me vinha e me vem. Fazer dele minha proustiana madeleine, evocar memórias por aromas, mas a verdade é que nunca tive algum sucesso nisto.

O que é teu cheiro? É o teu xampu? É o teu perfume? É o teu suor? É a mistura deles? Seja lá qual for, se forem todos, ele não está lá. Quantas vezes seria preciso para que ele se fixasse? Ou seria o hábito? De todo modo, eu sabia que não foram vezes suficientes, mas ainda arriscava e culpava meu falho olfato pelos insucessos. Sei que não era. Conheço teus cheiros e a memória deles. Teus cheiros e teus sabores. Gosto deles em você, gosto de senti-los em você, mas longe se tornam rarefeitos, ainda que eu tentasse preservá-los na proteção plástica que serviria originalmente para mantê-lo livre de poeira. Mais uma vez inverto a função dos incautos objetos. O que protegeria contra o que poderia estar fora agora é carcereiro do que deveria estar dentro.

Teu travesseiro, que só é teu por eu tê-lo feito assim. Que não é meu, apesar de minha posse dele, mas que jamais deixarei de tê-lo. Tão teu quanto as minhas memórias de você.

Ele está lá. Diferente de mim, ele está mudo, guardado, protegido. Diferente de mim ele ainda espera, espera para mim que sei que já não mais me é dado esperar. E um dia ele perderá a rima e seu cheiro será um cheiro que eu já conheço e reconhecerei bem e que me é familiar e habitual: o cheiro das coisas há muito guardadas sem uso em um canto de armário.

Mas ainda guardará alguma poesia e(m) suas penas.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

PROTOPOEMA DAS COISAS QUE SÓ SE PODEM IMAGINAR


Sem rimas com o seu nome. Isto seria fácil demais,
Simples demais, bobo demais, moleza!
Colocando as cartas na mesa
Não há pior lugar comum, falando com toda franqueza!

...

Acróstico?
Não!
Detesto!
Recurso
Esgotado!
Zombaria!
Absurdo!

...

Descrições parnasianas
Da sílfide pós-bucólica
E suas doiradas melenas
Em estrutura simbólica
Tornar-se-iam apenas
Verborragia melancólica.

...

O que resta então a este poeta
Que se deu a missão de escrever para ela?
Não muito além de imaginar
E de se confundir
E de indecidir inclusive sobre o quê
Ou como escrever.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

TEORIA DA COINSPIRAÇÃO


“Sonho que se sonha junto é realidade”

Tudo o que me cerca vem carregado de uma quantidade tal de informações que temo não ter capacidade de filtrá-las.
Imagens, palavras, cheiros, sensações, cacofonia, policromia, sinestesia.
Pensamentos.
Tudo transborda em pensamentos, não só o que é humano, pois o que é coisa também me vem como ideia e como a ideia do pensamento como sendo a coisa-em-si.
Sinapses.

Assimilar cada estímulo _concreto ou abstrato_ e metabolizar, realimentando todas as sensações já existentes em mim e sendo também um retransmissor, tornando-me (ou continuando) um núcleo e uma unidade de tudo, pois eu também estou ao meu redor.

Ah, essa permeabilidade que me permite absorver, devolver e transitar... tão vital e tão tóxica. O que me nutre e o que me mata tão similares e só o que os diferencia é o que eu escolho fazer de cada um.

Essa juventude carregada de sentimentos estreantes e ineditismos tão antigos. Essa velhice carregada de experiências e neurastenias sábias e desgastadas. E eu em meio a isso tudo.

Inspiro. Carrego meus pulmões de ar e de poeira e fumaça. E devolvo ao ar mais veneno. Eu e tudo o que respira e inspira. E as coisas.
Me inspiro. Me encho de tudo. Pleno. E devolvo, às vezes ainda cru. Não assimilado.

E sigo. Compartilhando o mesmo ar de tudo o que me cerca. As cores e sons. Concretudes e pensamentos. Apenas sendo.

Pessoa e coisa. Unidade e todo. Ainda e também.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

SIMPLES II (ou Coletânea Sensorial Não-verbal Translada e Resumida em Signos Lingüísticos)


Teus olhos grandes de um castanho vivo e longe.
Tuas mãos pequeninas de dedos suaves.
Uma contradição.
Não conseguires conter tudo aquilo que percebes.

Meus olhos pequenos e míopes de um castanho comum
permanentemente distraídos e protegidos por lentes externas.
Minhas mãos grandes de dedos longos moldadas e habilitadas
a cumprirem uma função específica.
Uma frustração.
Não conseguir perceber o que está ao meu alcance.

Não opostos, mas complementares.

Tua fala acelerada, entrecortada,
veloz e ricocheteada como um átomo
solto em um ciclotron
esperando colidir e fragmentar-se.
Uma urgência.
A pressa pela juventude adiada.

Minha quase mudez grave e rouca
interrompida por longas, lentas e verborrágicas análises,
como um livro de contos embolorado
em uma estante empoeirada de alguma biblioteca.
Uma conformidade.
A constatação da maturidade já premente.

Mais que características, quase caricaturas.

Até o encontro de olhos
Que não se buscam, mas se mesclam,
De mãos que se encaixam
e se protegem.
De lacunas
que se preenchem.
De toda um pluralidade
que almeja o singular.
De dois, que são variantes,
a um, que é binômio.
De conjuntos
que se intercedem
e do novo conjunto
formado pela interseção.

De tudo o que se pensa
A tudo o que se vive e sente.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

PLANOS II


Diz que vai me dizer tuas verdades
Me conta o que há para contar
Sorri para mim cada sorriso teu
Me abraça o que há para abraçar
E conta comigo o que for para compartilhar

Cada ponto,
Cada vírgula,
Cada verbo de ligação,
Cada oração coordenada,
E nosso texto, como uma ata,
Não terá parágrafos
Pois, ainda que digressivo,
O assunto será uno: nós.

E o que for de chorar,
De entristecer, de lamentar,
De silenciar, de calar até,
Não chore para mim.
Não silencie para mim,
mas comigo,
Pois cada momento teu
Peço que seja também meu.

Faz o que for para se fazer
Sente o que for para se sentir
Sonha o que há para se sonhar
Me beija cada beijo teu
E fica comigo cada instante que há para se existir

E o que é breve,
O que é fátuo,
Sirva apenas para pontuar e relevar
O enredamento dessa trama perene
De modo a nos lembrar
Que o efêmero
Só passa com a permissão do esquecimento.

Me apresenta o que é teu
Que não sou eu,
Pois o meu eu já é teu
E já o apresentaste a mim.

30/06/2007