sábado, 3 de novembro de 2012

TEU CHEIRO NO MEU TRAVESSEIRO


Certos clichês que os poetas já nem mais usam são resguardados somente ainda nas pobres rimas pobres das canções populares, que dependem delas de modo quase escravizado pelo ritmo, pela melodia, tudo isso que exige uma métrica e que se impõe, e é justamente essa escravização dependente dessa pobreza limitadora que torna a expressividade dessas canções muito direta, e é essa diretividade que atinge de modo certeiro os seus ouvintes, de modo ainda mais contundente que os poemas ditos mais elaborados aos seus leitores, autoproclamados mais capazes.

Tudo isto dito, devo revelar que não farei um poema nem comporei uma canção, apenas usarei uma velha e gasta rima para iniciar meu texto, que tratará não apenas das aproximações sonoras dessas palavras.

“Teu cheiro no meu travesseiro”. Toda vez que olho para ele me ocorre essa frase. Acho terrível. Parece trecho de uma daquelas músicas cafonas de dor de cotovelo que meu pai gosta de ouvir ou, ainda pior, algum sertanejo dessas duplas cujo cantor principal parece estar sempre disposto a explodir seus próprios pulmões ou gargantas e, consequentemente, o meu ouvido. Mas enfim, a frase me é inevitável, ela já vem pronta. E o travesseiro é teu, ele apenas mora aqui, com a muito cruel tarefa que eu tinha como minha e que transferi para ele, que é te esperar. E ele é um encarregado muito melhor do que eu a cumprir tal função. Ele fica lá, calado em sua natureza de coisa inanimada, não sabedor nem mesmo de sua destinação natural, que é simplesmente servir de apoio para a cabeça durante o sono. E eu aqui o tornando uma espécie de guardião de minhas poucas memórias e parcas esperanças e nenhum sonho.

Eu só o vejo quando abro aquela parte do armário destinada às coisas que não são tão cotidianas, mas ele está lá, não exatamente ao alcance da minha vista, mas eu o busco. Já aprendi a só tirá-lo de lá em caso de quase certeza. Estou tentando eliminar o “quase”. Acho que é por saber que, neste dia, ele não sairá de lá nunca mais. Antes eu o sacava mais inadvertidamente, o posicionava onde eu achava que ele deveria estar, o que seria o seu lugar real, e tentava buscar o efeito da frase que sempre me vinha e me vem. Fazer dele minha proustiana madeleine, evocar memórias por aromas, mas a verdade é que nunca tive algum sucesso nisto.

O que é teu cheiro? É o teu xampu? É o teu perfume? É o teu suor? É a mistura deles? Seja lá qual for, se forem todos, ele não está lá. Quantas vezes seria preciso para que ele se fixasse? Ou seria o hábito? De todo modo, eu sabia que não foram vezes suficientes, mas ainda arriscava e culpava meu falho olfato pelos insucessos. Sei que não era. Conheço teus cheiros e a memória deles. Teus cheiros e teus sabores. Gosto deles em você, gosto de senti-los em você, mas longe se tornam rarefeitos, ainda que eu tentasse preservá-los na proteção plástica que serviria originalmente para mantê-lo livre de poeira. Mais uma vez inverto a função dos incautos objetos. O que protegeria contra o que poderia estar fora agora é carcereiro do que deveria estar dentro.

Teu travesseiro, que só é teu por eu tê-lo feito assim. Que não é meu, apesar de minha posse dele, mas que jamais deixarei de tê-lo. Tão teu quanto as minhas memórias de você.

Ele está lá. Diferente de mim, ele está mudo, guardado, protegido. Diferente de mim ele ainda espera, espera para mim que sei que já não mais me é dado esperar. E um dia ele perderá a rima e seu cheiro será um cheiro que eu já conheço e reconhecerei bem e que me é familiar e habitual: o cheiro das coisas há muito guardadas sem uso em um canto de armário.

Mas ainda guardará alguma poesia e(m) suas penas.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

PROTOPOEMA DAS COISAS QUE SÓ SE PODEM IMAGINAR


Sem rimas com o seu nome. Isto seria fácil demais,
Simples demais, bobo demais, moleza!
Colocando as cartas na mesa
Não há pior lugar comum, falando com toda franqueza!

...

Acróstico?
Não!
Detesto!
Recurso
Esgotado!
Zombaria!
Absurdo!

...

Descrições parnasianas
Da sílfide pós-bucólica
E suas doiradas melenas
Em estrutura simbólica
Tornar-se-iam apenas
Verborragia melancólica.

...

O que resta então a este poeta
Que se deu a missão de escrever para ela?
Não muito além de imaginar
E de se confundir
E de indecidir inclusive sobre o quê
Ou como escrever.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

TEORIA DA COINSPIRAÇÃO


“Sonho que se sonha junto é realidade”

Tudo o que me cerca vem carregado de uma quantidade tal de informações que temo não ter capacidade de filtrá-las.
Imagens, palavras, cheiros, sensações, cacofonia, policromia, sinestesia.
Pensamentos.
Tudo transborda em pensamentos, não só o que é humano, pois o que é coisa também me vem como ideia e como a ideia do pensamento como sendo a coisa-em-si.
Sinapses.

Assimilar cada estímulo _concreto ou abstrato_ e metabolizar, realimentando todas as sensações já existentes em mim e sendo também um retransmissor, tornando-me (ou continuando) um núcleo e uma unidade de tudo, pois eu também estou ao meu redor.

Ah, essa permeabilidade que me permite absorver, devolver e transitar... tão vital e tão tóxica. O que me nutre e o que me mata tão similares e só o que os diferencia é o que eu escolho fazer de cada um.

Essa juventude carregada de sentimentos estreantes e ineditismos tão antigos. Essa velhice carregada de experiências e neurastenias sábias e desgastadas. E eu em meio a isso tudo.

Inspiro. Carrego meus pulmões de ar e de poeira e fumaça. E devolvo ao ar mais veneno. Eu e tudo o que respira e inspira. E as coisas.
Me inspiro. Me encho de tudo. Pleno. E devolvo, às vezes ainda cru. Não assimilado.

E sigo. Compartilhando o mesmo ar de tudo o que me cerca. As cores e sons. Concretudes e pensamentos. Apenas sendo.

Pessoa e coisa. Unidade e todo. Ainda e também.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

SIMPLES II (ou Coletânea Sensorial Não-verbal Translada e Resumida em Signos Lingüísticos)


Teus olhos grandes de um castanho vivo e longe.
Tuas mãos pequeninas de dedos suaves.
Uma contradição.
Não conseguires conter tudo aquilo que percebes.

Meus olhos pequenos e míopes de um castanho comum
permanentemente distraídos e protegidos por lentes externas.
Minhas mãos grandes de dedos longos moldadas e habilitadas
a cumprirem uma função específica.
Uma frustração.
Não conseguir perceber o que está ao meu alcance.

Não opostos, mas complementares.

Tua fala acelerada, entrecortada,
veloz e ricocheteada como um átomo
solto em um ciclotron
esperando colidir e fragmentar-se.
Uma urgência.
A pressa pela juventude adiada.

Minha quase mudez grave e rouca
interrompida por longas, lentas e verborrágicas análises,
como um livro de contos embolorado
em uma estante empoeirada de alguma biblioteca.
Uma conformidade.
A constatação da maturidade já premente.

Mais que características, quase caricaturas.

Até o encontro de olhos
Que não se buscam, mas se mesclam,
De mãos que se encaixam
e se protegem.
De lacunas
que se preenchem.
De toda um pluralidade
que almeja o singular.
De dois, que são variantes,
a um, que é binômio.
De conjuntos
que se intercedem
e do novo conjunto
formado pela interseção.

De tudo o que se pensa
A tudo o que se vive e sente.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

PLANOS II


Diz que vai me dizer tuas verdades
Me conta o que há para contar
Sorri para mim cada sorriso teu
Me abraça o que há para abraçar
E conta comigo o que for para compartilhar

Cada ponto,
Cada vírgula,
Cada verbo de ligação,
Cada oração coordenada,
E nosso texto, como uma ata,
Não terá parágrafos
Pois, ainda que digressivo,
O assunto será uno: nós.

E o que for de chorar,
De entristecer, de lamentar,
De silenciar, de calar até,
Não chore para mim.
Não silencie para mim,
mas comigo,
Pois cada momento teu
Peço que seja também meu.

Faz o que for para se fazer
Sente o que for para se sentir
Sonha o que há para se sonhar
Me beija cada beijo teu
E fica comigo cada instante que há para se existir

E o que é breve,
O que é fátuo,
Sirva apenas para pontuar e relevar
O enredamento dessa trama perene
De modo a nos lembrar
Que o efêmero
Só passa com a permissão do esquecimento.

Me apresenta o que é teu
Que não sou eu,
Pois o meu eu já é teu
E já o apresentaste a mim.

30/06/2007

terça-feira, 31 de julho de 2012

PLANOS


Guarda, meu amor,
Meus beijos nas tuas mãos
E eu guardo cada olhar teu.
Leva contigo
Cada palavra minha
E eu trago comigo
Todos os teus sorrisos.
Apreende cada ação minha
E eu assimilo cada gesto teu.

E que essa disparidade
Possa ser, por nós, compensada
De modo que o ponto intermediário
Convirja, mas não anule os extremos.

Fica, meu amor,
Com cada toque de minha pele na tua
Que eu levo comigo
Cada sensação e o desejo
Até o próximo toque.
Junta cada momento nosso
Que eu somarei a todos os outros momentos
Para construirmos nossa história juntos
E que esses fragmentos
Formem uma história só.

E que cada despedida
Possa ser, por nós, amenizada
De modo que cada novo encontro
Comemore-se, mas não anule a saudade.


10.07.2007

domingo, 29 de julho de 2012

CLAREAR


Pouco me importa
O barulho das ondas preguiçosas
Da Baía da Guanabara
Ou o vento frio
Que corta, no outono, a madrugada
Ou o céu que vai deixando
De ser azul marinho
Para se tornar cada vez mais claro
E púrpura no horizonte.

Pouco me importam
Os pescadores,
Os esportistas,
Os carros que passam,
As peculiaridades, humores
E as imperfeições
Dos que me são alheios.

Pouco me importa
O que era,
O que é,
O que será
Ou o que poderia ser.

O que me importa é que,
naquela noite,
naquele amanhecer,
Eu pude ver de frente seus olhos castanhos
clarearem com o dia,
Pude aquecer seu frio
com o meu calor para te emprestar,
Pude ouvir sua voz
dizendo meu nome com candura,
Pude olhar seu andar
e acompanhar seus passos,
Pude ser o que fui
e o que fomos
com toda a entrega
e com todas as promessas de eternidade
que poderíamos e pudemos ter
Naquela noite
e naquele amanhecer.

E saber que, nesse tempo,
Talvez tenha sido tudo
o que poderia ser.

07.05.2007