sexta-feira, 1 de junho de 2012

MARCHA DAS VADIAS

Antes de começar o meu texto eu gostaria de esclarecer certos pontos que eu pediria que não saíssem do pensamento dos amigos que se aventurarem a ler.

1. NENHUM homem, mas NENHUM MESMO, tem o mínimo direito de abusar de uma mulher.
1.1. Entenda-se por abuso as abordagens sexuais não autorizadas.
1.1.1. Autorizada vale (quase) tudo (afinal, quem sou eu pra dizer que certas coisas que aparecem na revista NOVA não funcionam?).

Ok, tendo dito isto, comecemos.

"A Marcha das Vadias é um movimento internacional de mulheres criado em abril de 2011 na cidade de Toronto, no Canadá, em resposta ao comentário de um policial que disse que, para evitar estupros no campus, as mulheres deveriam parar de se vestir como “sluts” (vadias, em português)." [LEIA AQUI]

As palavras do tal policial são algo que, sem sombra de dúvida, merece o repúdio de toda a sociedade. Eu gostaria de crer que estamos todos de acordo com a ideia de que quem causa o estupro é o homem e não a mulher, pouco importando se ela está nua ou de burca. E é isto que deve ser posto em questão. O meu ponto é: tenho visto muitas moças por aí que, por mais bem-intencionadas que elas estejam na defesa de seus direitos, andam confundindo um pouco a razão de tal defesa. Como?

"Mulheres ofendidas contam o que acontece quando os homens pensam que a roupa é um convite" [LEIA AQUI]

 A reportagem cita vários exemplos, alguns casos de violência e, só a constar, ocorreram inclusive em lugares ditos "civilizados" como Paris, mas esta foi a menor parte da matéria. O foco era a "confusão" que uma roupa pode causar em interpretações alheias. A entrevistada principal, Simone Grazielle, produtora de eventos, fora confundida com uma prostituta em um desses eventos (compreenda-se "casa noturna/boate paulistana altas horas da noite") por estar vestindo short e bota e por ter "caprichado na maquiagem". Estejam os ainda leitores atentos ao fato de que ela foi apenas ABORDADA. Não foi agredida nem estuprada. Ela se ofendeu simplesmente por ter sido confundida com uma trabalhadora de um setor que não era o dela. Sim, por menos que algumas pessoas gostem ou reconheçam isso, prostitutas são trabalhadoras e o tipo de roupas e maquiagem que elas usam são como seus uniformes de trabalho, permitindo que elas sejam reconhecidas como profissionais. Aí eu pergunto: "Se ela fosse uma prostituta, ela poderia ser abordada?" Claro que sim! E o possível cliente DEVE perguntar quanto é o programa. O que ele não pode é achar que, por ela ser uma prostituta, ela seja automaticamente obrigada a ter sexo com ele. Uma premissa simples em qualquer tipo de prestação de serviços: o prestador só é obrigado após o contrato ser firmado e estabelecido. Simples assim. Prostitutas não merecem ser tratadas com respeito por serem mulheres. Merecem ser tratadas com respeito por serem PESSOAS.

 Retomando o ponto "as roupas"... Ser confundido com outra coisa por conta dos trajes... quantas vezes eu já não vi ou mesmo aconteceu comigo. Punks sendo confundidos com mendigos; gente de branco sendo confundida com médico... recentemente, no Recife, eu estava em uma loja em um shopping com um amigo e uma moça veio me perguntar o preço de um determinado item. Ora, como eu saberia? Mas eu fui olhar um dos funcionários o estabelecimento e lá estava ele de camisa cinza de botões, calça azul marinho e sapato preto. Bom, minha calça era jeans, mas eu não poderia culpar ninguém pela confusão ou mesmo me sentir ofendido, eu estava "uniformizado" no ambiente de trabalho alheio, o que me move a perguntar: Qual é a real ofensa em, não havendo nenhum tipo de agressão, ser confundida com uma prostituta?

 Outro ponto no qual discordo de algumas das motivações de algumas apoiadoras da Marcha é: O que diabos e uma "vadia"? Não vou dar uma de inocente e fingir que não sei, mas esta é a questão a ser aprofundada. Um cara usa um termo idiota, falemos deste termo. "Slut", que não significa "vadia", mas que em sua origem etimológica tem mais a ver com "suja". A tradução do termo por "vadia" se deu obviamente pela conotação sexual depreciativa ser similar. Em nossa (ocidental, pelo menos) linguagem machista, "sujeira" e "ócio", no que se referem às mulheres têm uma ligação com "sexo". Não vou tentar mudar o nome da Marcha, não é isso. Apenas acho um tanto estranho. Soa para mim como se o movimento negro resolvesse fazer a "marcha dos macacos" ou os gays a "marcha das bichas (ou "dos viados")" ao invés de suas manifestações serem pelo uso correto de termos que não firam a dignidade do que representam. Quando eu vejo uma mulher dizendo, ainda que em uma postura da linha "a melhor defesa é o ataque", "somos todos vadias", eu penso: "será que ela se acha realmente superior a alguma outra moça que tenha optado por ser mais livre sexualmente?". Eu não sei, não apenas questionamentos.

 Mais um ponto atinge diretamente essas moças que têm uma relação mais solta com o sexo. Pessoal, não vamos esquecer uma coisa fundamental aqui: ROUPAS COMUNICAM SIM! Quando nos vestimos de determinados modos estamos dizendo um pouco de quem somos, de nossas preferências, de nossa "tribo". Sabemos quando vemos um rockeiro, um funkeiro, um pagodeiro, um "mauricinho", um "playboy" e por aí vai... E o que nós temos a ver com o modo como as outras pessoas se vestem? Errou que respondeu "NADA"... e também acertou. Nós buscamos identificação com o nosso jeito, mas se não há essa identificação, aí sim não teremos nada a ver com isso. E há moças que gostam de expressar sua liberalidade sexual através de suas vestes e ELAS TÊM TODO O DIREITO DISSO. Eu posso achar um pouco demasiado, posso achar que "ela não é moça pra mim". O que eu não posso achar é que 1. ela é uma "vadia" e 2. que ela ser assim me dá direitos automáticos de abordá-la com contatos sexuais sem a sua permissão. E eu tampouco posso achar que ela não deva se vestir assim... e vem a questão: Os homens devem permanecer totalmente anestesiados a uma mulher que se vestiu PARA FICAR BONITA/SEXY? Cobiçar uma mulher se tornou o grande pecado ao feminismo de hoje? Na mesma matéria citada anteriormente: " 'Será que se eu transar no primeiro encontro ele vai me achar uma ‘vadia’? E se eu vestir uma calcinha fio dental, ele vai pensar que sou dada?' " Estas são dúvidas femininas? Ou são dúvidas de mulheres que se preocupam demais com o que homens machistas pensam? E, repito, qual o real problema em ser mais "proativa sexualmente" (o eufemismo aqui foi inevitável, perdão) e querer e gostar de expressar isso inclusive com suas roupas? Devemos nós (homens) nunca mais repararmos em vocês?

 Por fim, eu apenas gostaria de dizer que acho a manifestação e o modo como ela é feito muito válida. Quando uma mulher sai sem camisa ela mostra que o mostrar ou não do corpo é menos que uma questão de "tabu social": é somente uma questão de CONTEXTO, e é em nome desde contexto que eu peço que algumas revejam suas motivações particulares sem perderem o ímpeto da manifestação e da busca pela igualdade e de exporem como certos julgamentos podem efetivamente ferir as pessoas e até matá-las, literalmente.

 Não, minhas queridas amigas, vocês não são vadias e nem as "vadias" são vadias. Assim como eu não sou um macaco por ser negro. Assim como um homossexual não é uma bicha. O nome da passeata não me choca, apenas me confunde.

Um beijo deste aqui que tanto ama as mulheres.

Pode começar o apedrejamento.

sábado, 26 de maio de 2012

OS FINS JUSTIFICAM OS MEIOS?

Enfim vou me pronunciar sobre o assunto da semana antes que a semana acabe e surja um novo tema e o anterior se torne fatalmente ultrapassado nestes tempos de internet em que ontem já é "faz tempo". Tratarei do "caso Xuxa", ou melhor: "a celeuma em torno da entrevista da apresentadora Xuxa ao Fantástico".

Como o assunto é essencialmente televisivo, começarei com o mesmo esclarecimento que sempre faço: é de conhecimento de todos nos meus círculos que eu abdiquei quase completamente do uso de tal aparelho, sendo única e exclusiva exceção as transmissões do futebol.

Pois bem, tive conhecimento da tal entrevista pela internet quando esta encerrou-se (sim, eu não vejo tevê e não, eu não abro mão de estar conectado à internet quase nunca). Uma grade revelação havia sido feita: Xuxa fora abusada sexualmente na infância. [som de explosão]

A partir daí polvorosa total nas redes sociais e, como é dito nestas mesmas redes, "lovers gonna love and haters gonna hate", e foi o que ocorreu. A primeira onda de choque deste impacto foram declarações apaixonadas e pétalas de rosas de fãs que a consideram "rainha" e todas as pedras de quem a considera o contrário. Se há um tipo de animalzinho nocivo que eu não gosto é o tal do "fã". Eu já vi na parca zoologia que conheço animais cegos, animais surdos, animais que não se locomovem bem, mas este é um que é isso tudo junto e ainda consegue ser estridente! Deveria ser melhor estudado. Mas, quase empatado, ficam certos membros do "clube do contra" (confesso, eu às vezes tenho uma certa simpatia por eles). É uma espécie com mais variantes que os fâs, mas que tem dentro deles uma subdivisão que acaba com a fama de todo o resto: o que reclama só para reclamar. Não interessam quais ou mesmo se há razões. Ele é tão do contra que chega a ser contraditório. Odeia a Globo, mas não perde um programa e ainda reclama quando a Globo deixa de fazer algo e coisas do tipo. Mas essa foi só a primeira fumaça que vem, ainda cheia de detritos.

Logo após, começam a surgir as piadas, as defesas mais "racionais", a configuração com o ambiente em volta começa a se restabelecer e é aí que a gente começa a ter real noção do que foi tal entrevista.

Como dito acima, sou um "morador" da internet e percebi, não lembro se antes ou depois da declaração de Xuxa, que uma campanha do Disque 100 e outra sobre o mesmo tema (abuso sexual infantil) começou a ser veiculada nos anúncios do YouTube antes dos vídeos, uma animação digital muito bem feita, dessas que levam meses para ficarem prontas. E também houve um aumento/reforço nas campanhas para denúncia nas ultimas semanas. Coincidência?

Talvez infelizmente para mim eu não acredite muito em coincidências. Acaso? Sim. Coincidência? Nunca. Muito menos na mídia. Resolvi ver a entrevista.

Eu sou um dos que não gosta nada da figura da Xuxa, mas eu não podia dizer nada a partir do que ela declarou. Foi uma entrevista de uma celebridade (como tantas outras que eu desconsidero) falando se sua vida (como a vida de tantas outras pessoas famosas ou não que eu igualmente desconsidero), e com algumas declarações de impacto que eu, que desconheço (e desconsidero) a pessoa, não tenho o mínimo suporte para dizer serem coisas reais, mentirosas ou meramente fantasiosas... mas há um ponto específico: tenho que desconsiderar minha desconsideração pela existência da "pessoa física" e me concentrar na "pessoa pública", e esta sim, eu quase sempre considerei nociva, só que, mesmo assim, eu não teria muito a falar que não pudesse ser rebatido com os argumentos de sempre dos seus defensores mais rasos: "canalhice e inveja" (http://oglobo.globo.com/cultura/xexeo/posts/2012/05/23/sobre-xuxa-canalhas-invejosos-446509.asp). Permaneço em meu silêncio sobre o assunto (quebrado apenas em conversas mais íntimas, né, Christiana?) e meu riso calado de alguns chistes.

Mas ontem o site da revista Época me trouxe uma nova abordagem do tema, fazendo ligações ainda "apaixonadas", porém evocando uma maior historicidade, contextualizações mais específicas, um certo apelo à racionalidade... e agora faço uma confissão: menti para vocês, amigos. Não falarei sobre a Xuxa. Falarei sobre "a defesa midiática de Xuxa feita por Cristiane Segatto" [http://revistaepoca.globo.com/Saude-e-bem-estar/cristiane-segatto/noticia/2012/05/xuxa-e-doenca-do-coracao-de-pedra.html].

A autora parte de um mote louvável: o incrível aumento do número de denúncias de abuso infantil após a declaração da apresentadora. Fatos são fatos. Fatos são contundentes. Fatos são irrefutáveis. Mas o que há por trás dos fatos?

Segatto diz que o impulso ofensivo de um determinado rapaz contra Xuxa foi movido por preconceito. "Contra a beleza, a riqueza e o sucesso. Se o mesmo depoimento, com as mesmas palavras, a mesma entonação, a mesma emoção saísse da boca de uma moça pobre e anônima provavelmente a reação do rapaz fosse outra."

Não, minha cara colunista. Se o mesmo depoimento saísse de da boca de uma moça pobre e anônima, não haveria reação nenhuma. Tal depoimento não estaria no Fantástico. Apenas isto.

É aí que começa a minha linha de raciocínio. A retomarei em outro(s) momento(s).

Cristiane fala sobre o passado sexista da apresentadora. Há poucos anos, também veiculada e alimentada pelas redes sociais, surgiu a lenda de que Xuxa teria 16 anos em "Amor, Estranho Amor", e que isto seria uma defesa válida para o que ela fez no filme. Bom, ela já tinha 18. Dizer que ela tinha 16 é como dizer que a Glória Maria tem 45 anos hoje. Mas a questão real é transformá-la em igualmente "vítima" da história. Quanto a filmes "de arte" com sexualização infantil nos anos 80, a Brooke Shields que o diga. Alguns poderiam contextualizar artisticamente tudo e dizer que não se pode pensar o filme anacronicamente, no que eu concordo. Mas entram aí os hercúleos esforços de Xuxa em tirar (judicialmente inclusive) de circulação todo e qualquer traço de sexualidade que ela possa ter tido antes do Xou da Xuxa como o filme (que, por favor, está LONGE de ser pornô, como alguns andam alardeando) e seus ensaios para as revistas Ele & Ela e Playboy. Não "pegam bem" para a imagem que ela vem construindo há décadas.

A autora também evoca outros ídolos sexuais da época, Gretchen e as Chacretes, mas parece que a colunista esqueceu-se de um detalhe muito pontual: embora elas aparecessem em seus maiôs sensuais em programas vespertinos, elas DE MODO ALGUM eram voltadas para o público infantil!

Por favor, chamar as roupas de Xuxa e Paquitas de "recatadas" foi uma tentativa de piada suja, né? Isto aqui [http://www.youtube.com/watch?v=3-xmyulHmL0] não era "recatado" nem nos bailes de carnaval igualmente citados na coluna!

Xuxa foi um mote para a construção de um público consumidor. As atrações infantis como "Arca de Noé", "Casa de Brinquedos", "Plunct, Plact, Zum" e os especiais d'A Turma do Balão Mágico eram bons, educativos, mas eram voltados às crianças... Eis o problema. Criança não consome. Não existe isso de "mercado infantil". Há um "público de crianças", mas elas não consomem. ELAS NÃO TÊM DINHEIRO. O dinheirinho que elas ganham dos pais seria para comprar figurinhas de álbuns e chicletes, mas nunca para comprar coisas mais caras como roupas, por exemplo. Então aparece a Xuxa. As mães querem ser bonitas como ela. Os pais querem tê-la. As crianças... bem, elas vão ver e ouvir o que seus pais a colocam para ver e ouvir. E havia desenhos animados legais. Tudo deu muito certo. O mercado estava feito e rapidamente consolidado. "Clones" de Xuxa em todas as redes de televisão e toda uma nova sorte de produtos é criada. Xuxa é um marco na economia brasileira.

Voltando a falar da construção e manutenção da imagem de Xuxa para as crianças, é até interessante perceber que ela realmente o faz com afinco. Movida pelo quê? Só ela sabe. Qualquer coisa que eu diga será achismo. Atenhamo-nos aos fatos.

"Xuxa Só Para Baixinhos" foi um empreendimento que me surpreendeu. Passado o asco que eu sentia da super-autoexposição de cada passo da gestação da apresentadora, desde a concepção até o anúncio do nascimento no Jornal nacional, ela se torna mãe e faz um projeto realmente BOM, realmente INFANTIL. Lembro de comentar na época com minha ex-mulher assim: "Veja só, Renata, como está a educação no Brasil. As coisas estão tão ruins que a gente pode chamar o trabalho da Xuxa de algo exemplarmente bom". Só que, passada a terceira edição do projeto, talvez (achismo) também pela Sasha ter crescido, tal empreendimento tornou-se também essencialmente comercial, deixando os aspectos educacionais em segundo (ou sexto ou sétimo) plano.

Enfim, não vou falar sobre a "emoção" do depoimento. Xuxa sempre me parece o mesmo robô de 6 anos de idade recitando "batatinha quando nasce" toda vez que abre a boca. Não vou falar que é mentira o que ela disse, que ela é maluca nem nada. Ela realmente pode ter passado por tudo o que disse, desde os abusos até ser pedida em casamento pelo Michael Jackson. Não vou duvidar do amor sincero dela por Ayrton Senna. Mas também não vou acreditar em nada disso.

Maria da Graça Meneghel é uma modelo. Uma figura de marketing, moldada desde sempre para vender produtos, bons ou ruins. Desta vez foi um produto excelente, mas será que realmente é preciso de uma figura como ela, de credibilidade altamente questionável, para que tal ganho fosse possível? Será que as tantas moças pobres e anônimas que sempre aparecem denunciando seus abusos tenham suas vozes diminuídas por serem "ninguém"?

Eu acho muito mais duro saber de uma dessas meninas que da Xuxa. A maior parte dessas meninas não tem uma vida que sequer se aproxima de "normal". Vejo nas salas de aulas meninas que se transmutam em seres sexualizados por causa da Xuxa e de seus atuais congêneres. Vejo meninas de 13 e 14 anos que acham que a coisa mais importante é parecer sexy. "Agradeço" a Xuxa por isso. Mas achar que a ela se deve o mérito de alavancar denúncias de abuso sexual... me perdoem, eu não acho que ela tenha credibilidade pública para tal.

Para mim, a credibilidade da figura pública de Xuxa se resume em uma piada que circula por aí... [http://a6.sphotos.ak.fbcdn.net/hphotos-ak-snc7/399024_2749146466126_1781539866_1546755_1383512100_n.jpg]

E fica a pergunta que dá título a este "breve" texto, que é a mesma que pontua toda questão de ética desde que esta é pensada.

sábado, 28 de abril de 2012

PSICOSSOMATIZAÇÃO

Pressão no peito. Dor. Tontura, suor, tremores. Desorientação. Respiração ofegante. Falta de ar. Apneia.
Olhos abertos, retinas dilatadas, fixas.

Ainda a dor. Ainda o suor. Ainda a falta de ar.
A garganta seca. Os tremores.

A certeza de conhecer bem tais sensações e saber que estou longe de morrer devido a elas, pois acontece justamente o contrário.
Tudo isso é não mais que perceber que eu ainda transpiro. Respiro. Vejo. E que meu coração ainda está lá.

Já fazia tempos que eu não me dava mais conta disso e aconteceu novamente, como sempre, com minha desprevenção.
Estou vivo, e esta é uma constatação feliz e estranha.

Você, infarto e desfibrilador.

sábado, 21 de abril de 2012

PÚBERE

Ah, as revistas com belas moças desnudas estampadas em suas capas, páginas e pôsteres... Lembro de quando elas apareceram na minha vida... na verdade, elas simplesmente apareciam na minha casa (meu pai era assinante das duas principais publicações do país). Lembro também quando elas passaram a ter realmente importância para mim (ele tentava escondê-las, mas algum de vocês já tentou esconder dentro de casa uma Playboy de um adolescente? Pois é: um esforço fadado ao total fracasso).

Uma coisa me chamava a atenção quase tanto quanto as beldades nuas que até hoje povoam minhas lembranças e fantasias: os textos que, via de regra, acompanhavam as fotos. Devo dizer que eles eram auxiliares valorosos já que falamos em fantasiar... Além das fotos havia sempre uma exaltação da beleza da mulher, mas não "a beleza da mulher" de modo geral ou genérico. Era a beleza DAQUELA mulher em especial... não que a maioria delas precisasse ter sua beleza narrada ou explicada (ok, vamos ser sinceros... algumas das moças realmente precisavam), mas as frases não se prestavam a isso. Elas celebravam aquela mulher e eu, nós, leitores, igualmente celebrávamos extasiados.

Eu sempre percebia que, quando se tratava de alguma atriz ou cantora famosa ser a estrela da revista, tais apontamentos eram assinados por gente que eu conhecia! Compositores, escritores, diretores, seus colegas atores e cantores... sempre homens que conheciam e conviviam com aquelas deusas que, para mim, eram feitas apenas de vinil, celulóide, raios catódicos, papel, tinta e sonhos. Eles garantiam para nós não apenas a existência daquela beleza, mas também a singularidade de suas existências. E eles conseguiam transmitir a ideia de uma contemplação admirativa de modo claro: eles não possuiam aquelas mulheres. Eles lhes eram íntimos da forma mais cruel que a minha mente então pueril poderia conceber: eles eram seus amigos.

Com o passar dos anos eu posso sem nenhuma modéstia me orgulhar de uma coisa: ser amigo de muitas mulheres. Amigo mesmo. Peço desculpa aos meus camaradas do sexo masculino, mas é notória a minha preferência por elas inclusive na amizade... Devo agradecer também ao sem-número de meninas e mocinhas que, desde sempre, me disseram: "eu gosto de você só como amigo". Sério, vocês não poderiam ter-me feito bem maior. Eu passei a entender tal condição como uma vantagem se não para conquistas, para meu aprendizado na vida. E sinto até pena de vários caras a quem vocês facilitaram demais o caminho e acabaram não aprendendo nada não só sobre as mulheres, mas sobre as pessoas. A verdade é que sou completamente apaixonado pelas minhas amigas, e o acaso me permitiu ficar cercado das mais belas mulheres que eu talvez apenas sonhasse conhecer quando garoto. Talvez também ter me tornado (ainda que de modo incomparavelmente mais modesto e alternativo) um frequentador de meios artísticos possa ter contribuído...

Mas hoje as coisas mudaram um bocado. As publicações mudaram de mídia e a velocidade faz com que tudo se torne sobreposto e superexposto. Pouco restou do espaço contemplativo da beleza e pouco resta à imaginação fantasiar.... Menos que claro, tudo está óbvio demais.

E agora, na minha vida adulta, volto a sentir inveja daqueles que tiveram a oportunidade e o espaço para louvar as deusas e tranformá-las em musas, aproximando-nas de nós, meros mortais, dando-lhes veracidade... E lamento por esta geração que perdeu a oportunidade da poesia em meios tão inusitados.


Alan Robert
21-04-2012


[texto em loas ao sublime trabalho do fotógrafo Jorge Bispo em seu projeto Apartamento 302. vale a visita, vale o apoio. vale o bom gosto]

terça-feira, 10 de abril de 2012

VALE O ESCRITO

“Vale o escrito!”, diz um velho ditado. A importância de uma palavra escrita em um papel dá ao homem uma impressão de que coisas abstratas como a verdade, a moral e mesmo os sentimentos como o amor têm um lado concreto.
Tudo há que estar escrito. Em papiros, papéis; na pedra, nos muros; em uma camiseta ou sobre o couro; na história ou nas estrelas. O homem se encontra, se descobre e se reconhece na palavra escrita.
Desde o Decálogo, onde o próprio Deus teria escrito as leis para a humanidade, até as palavras ocas dos “Minutos de Sabedoria”, o homem é o que está escrito de si e para si. Partindo desse pensamento, pode-se dar ao objeto “livro” uma importância mágica, sagrada. Tê-lo em nossas estantes ou nossas mãos nos dá a certeza de ser alguém diferenciado do resto. Somos os portadores do conhecimento.
O livro tem também uma grande importância por conceder ao seu possuidor um certo status e o material físico do livro também. Uma edição comemorativa, capa de couro, bordas em ouro, não tem as mesmas palavras de uma outra? Sim, mas o objeto tem sua importância. É o poder de dizer: “Eu tenho a edição limitada de Les Misérables!”.
“Um país se faz com homens e livros”, disse Monteiro Lobato. Uma cidade, para ser respeitada, deve possuir uma grande biblioteca. Entre as grandes malfeitorias da História figuram episódios de queima de livros; o incêndio da Biblioteca de Alexandria, as queimas públicas de livros promovidas por Hitler e Mao, como a Inquisição fazia queimar as mulheres que acusavam de bruxas. Pode-se aleijar toda uma sociedade usando apenas a censura.
Há também uma apropriação afetiva desse objeto. É uma coisa que podemos chamar de nosso, abraçar, disputar sua posse (“Devolva o Neruda que você me tomou e nunca leu”¹), que podemos usar para construir não apenas uma casa, mas um lar (“Onde eu possa plantar meus amigos/ Meus discos e livros/ E nada mais”²).
Esse objeto que é maior que nós, que dependemos dele para garantir nossa palavra (“Juro sobre a Bíblia”, eu prefiro jurar sobre um bom dicionário).
Nos livros encontramos palavras que tomamos como nossas e as copiamos em nossos diários, nossa memória (e dizer de cor) e, hoje em dia, tatuar em nossa própria pele.
É o que somos, é o que eu sou. Estava escrito nos papiros, nos papéis; na pedra, nos muros; em uma camiseta, marcado em couro. Está escrito na História. Estava escrito nas estrelas. Está nos meus livros na minha estante.


“Os livros na estante já não têm mais tanta importância,
Do muito que eu li, do pouco que eu sei, nada me resta.”
(Léo Jaime)

(Tradução de Alan Robert de texto de 08 de abril de 2008 do mesmo autor)

¹BUARQUE, Chico. Trocando em Miúdos
²RODRIX, Zé. Casa no Campo

quarta-feira, 14 de março de 2012

(polaroid)

Uma série de coisas rápidas
Fast-food, nissin lámen
Propaganda subliminar
_ um momento, por favor _
Um átimo

Um rol de processos lentos
Um jantar, flores na mesa
Um livro a terminar
Um momento a ser rememorado

Fatos atemporais
O cigarro de depois
A palavra que faltou
O olhar correspondido

O momento que permaneceu
Uma foto, uma colagem

Uma rotina
Uma pintura

Um pretérito imperfeito
Ou mesmo um mais-que-perfeito
Feito de pretéritos perfeitos

Um fato
Uma coisa rápido
Um processo lento

O olhar correspondido
Um jantar, flores na mesa
O cigarro de depois...

_Um momento, por favor.


(2005)

quinta-feira, 8 de março de 2012

(isto não é um poema de amor, é apenas um) PEQUENO POEMA DE UM GOSTAR PERENE

Quando eu quase esqueço de como a acho linda, ela surge deslumbrante.

Quando eu quase esqueço de como a acho doce, ela se mostra um nicho de carinho.

Quando eu quase esqueço de como a acho inteligente, ela me apresenta pontos de vista que só ela poderia apresentar.

Quando quase esqueço de como a acho elegante, ela demonstra um estilo inigualável.

Quando quase esqueço de como a acho especial, ela expõe seu talento.



Quando me lembro do quanto gosto dela, ela me lembra do quanto isso é inviável.