segunda-feira, 5 de setembro de 2011

OLHOS

“Esta fonte já está seca!”, grita um dos tantos eus que me habitam.

Tal improdutividade faz com que nada mais verta e que o que ainda existe de resto, se ainda existir, seja impróprio. Falta ainda determinar a causa da inutilização deste olho d’água; pode ter sido tanta coisa, como um grande período de seca, poluição, o uso inadvertido de seus recursos ou até um excesso de permeabilidade da terra. Muitas vezes o conjunto de diversos fatores. Às vezes é melhor não saber.

...

A catarata que me embota os olhos da alma turva tanto a percepção do que está à minha frente quanto a expressão de tudo o que um dia eu já tenha sentido, mas a cegueira me conduz a estar mais atento aos outros sentidos, em especial o tato e o paladar para o sentir do frescor e do gosto de águas que jorram de outras fontes em tanto volume e limpidez que torna-se impossível contê-las e só me resta deixar-me levar por esta nova catarata.

...

Minha miopia embaça minha visão desde tanto tempo que não tenho como saber o que eu seria sem ela. Será uma vantagem tão grande assim prescindir de lentes para perceber os contornos de tudo que nos é distante? Ora, mas já não sabemos que contornos são ilusões? Ainda há o detalhe de que nos aproximamos para ver bem aquilo que queremos ver bem, não somos inadvertidamente invadidos por visões muito extremamente definidas inclusive daquilo que não nos interessa.

Mesmo meus olhos no espelho, quando tenho que me aproximar bem para ver minha pupila, que não posso ver sem o auxílio de um espelho. Que não posso delinear se o espelho estiver distante.




(para Ana, meu espelho renovado e melhor, minha pupila, minha parceira, meu abraço e minha amiga)

sábado, 3 de setembro de 2011

SÃO PAULO

São Paulo é uma cidade imensa e cinza. Saindo do Centro e indo para a Freguesia do Ó pode-se ver a cidade se afastando. São prédios e prédios e prédios e mais prédios; todos altos, muito altos, parece que um querendo ser mais alto que o outro. Não há como não se assombrar com o tamanho de tudo nessa megalópole tupiniquim.

São Paulo parece padecer do mal desses garotos muito ricos que têm famílias sem história e compram mansões, coberturas e carros esportivos velozes (talvez seja para compensar também alguma inferioridade fálica, visto o sem-número de espigões erigidos em seu meio).

As proporções de tudo são enormes. Uma teia sem fim de ruas e ruas e ruas se entrecortando. Ruas e ruas subindo e descendo. Literalmente subindo e descendo, descendo e subindo. Não há uma rua plana em São Paulo. Fico imaginando que os pedreiros paulistanos sejam verdadeiros experts no uso do nível de bolha e do fio de prumo. Parece que a falta de contato com o mar deixa a cidade assim. Até nisso parece haver algum tipo de compensação: já que não há o mar, as ruas formam ondas; já que as ondas são de concreto e asfalto, há skatistas onde deveria haver surf.

A imensidão de concreto fez também com que eu descobrisse pelo menos umas vinte novas tonalidades de cinza que meus olhos não sabiam existir. Alguns amigos ainda insistem que São Paulo é a cidade perfeita para o meu estilo de vida. Talvez até estejam certos m alguns aspectos, mas falta o essencial. Falta a sutileza da diferença.

Certa campanha turística estigmatizou São Paulo como uma espécie de Nova York dos trópicos. “A cidade que nunca dorme”. Ela dorme, e dorme cedo! Mas... Ah! A noite paulistana. Seus restaurantes, bares, boates... Tudo é feito aos moldes de algum outro lugar. Uma cidade feita por imigrantes internos e externos para turistas e migrantes internos e externos não se sentirem totalmente “lá”. Aliás, até duvido que esse “lá” realmente exista. Se existir, deve estar oculto no meio da imensidão imponente e gris.

Me vem a canção Sampa, de Caetano Veloso, à cabeça para tentar falar das moças de São Paulo. A “deselegância” não é discreta. É over. Overdrive, overloaded, overfashioned – São Paulo fala inglês quando convém e quando não convém – mas as meninas são lindas. Todas. As meninas de família, as burguesinhas entediadas, as alternativas, as proletárias e as putas das esquinas. Essas últimas, por sinal, merecem uma abordagem mais aprofundada. São lindas demais, mas não são paulistanas de
origem. São mineiras, goianas, baianas, mato-grossenses que buscam em São Paulo oportunidades de vida que acabam não encontrando ou, até mesmo, encontram ao estudar em universidades, mas acabam fazendo das ruas seu modo de sustentar temporariamente tão caro empreendimento. Mas como são belas as meninas da vida em São Paulo! 

Tudo ali é sexo. Geografia, arquitetura, modo de vida e sociedade. A cada quarteirão, um grande cinema pornô ou um prostíbulo ou um “inferninho”. Às vezes, vários no mesmo quarteirão. Quase sempre de modo caoticamente distribuído, embora se diga que há áreas destinadas a tal entretenimento. Mais do que sexo, São Paulo é gay. Mais! São Paulo é pansexual! Qualquer ambiente em São Paulo é sui generis. Não há limites. Poder-se-ia dizer que há uma ponta de preconceito em minhas palavras, mas garanto que não. Chega a ser um pouco o contrário. Parece um contra-senso  (ou, no mínimo, pouco elegante) afirmar-se exclusivamente heterossexual por lá. 

Gostaria de voltar a falar da arquitetura paulistana, já que o assunto é sexo. É uma cidade de prédios que se convertem em falos homéricos e largos e praças onde se pode mergulhar. Mas os prédios são inúmeros e os largos são poucos. A cidade com curvas e ondas sufoca-se em meio a tantos sinais verticais desejantes de manifestar sua imponência e magnitude. Há o maior de todos, estrategicamente também um símbolo do poder econômico desse lugar: o prédio do Banespa, o mais paulista dos bancos. Do alto de sua torre pode-se ver todo o centro e além, todos os prédios que
não conseguem ser tão altos e ricos quanto ele e grita de uma maneira aguda e vertiginosa toda a sua superioridade: “O meu é maior que o de todos vocês!”. Mas meu jocoso espírito carioca pergunta: “Dá para ver tudo mesmo?”, “Sim, tudo!”, “Dá para ver o mar?” e uma careta de meu interlocutor responde o meu riso e eu me encho de filosofia litorânea pensando: “Para que uma visão tão vertical que se ela não pode deitar-se no aconchego molhado das ondas?”. E uso isso como alternativa à minha galopante acrofobia para não escalar tal torre.

Nesse ambiente claustrofóbico e impositivo, a população parece fugir ou querer se esconder. O espaço para essa fuga encontra-se no subsolo. Os paulistas andam de metrô. Uma extensa e intrincada rede metroviária corta e entrecorta os subterrâneos urbanos. Há um minhocário humano embaixo de São Paulo. Se do alto de seus prédios as pessoas parecem formigas, os metrôs são os formigueiros “por onde entra e sai o mundo”, onde se transita para lá e para cá em velocidade vigorosa.

Assim como as formigas, há divisões nos tipos de cidadãos. São Paulo fervilha de tribos urbanas em categorias e subcategorias diversas. Há engravatados e proletários. Paulistanos e baianos. Hip-hoppers e rockeiros. Dentre os rockeiros (categoria da qual posso falar com alguma propriedade) há punks, headbangers, indies, emos, góticos. Todos absolutamente diferenciados em suas tamanhas semelhanças. A cidade se propõe – ou, ao menos, se declara – cosmopolita. Mas as divisões são claras. Bairros de judeus, de italianos, de “japas”, de nordestinos... Não só os bairros, mas também se vê nos centros de consumo (consumo, sim. É um território essencialmente capitalista) e de circulação tais divisões. Não cometerei o exagero de comparar a uma sociedade de castas, mas a mistura ainda está longe.

Paulistanos são esforçados (quando assim o querem) em serem simpáticos. Eles até tentam... Mas são duros como a cidade. Preferem o aperto de mão ao abraço. Dão só um beijo (como pode eles desconhecerem a funcionalidade social do “um-dois” ao cumprimentar?). O paulistano só é realmente afável com quem lhes é muito querido. Aí eles abraçam, acolhem. Só continuam desconhecendo o “um-dois” na hora de dar beijos... Não se pode forçar tanto assim a natureza... Nisso eu tenho que reverenciar os “meus” paulistas. Certamente tenho muita sorte em lhes ser de grande estima e eles são mestres na arte do receber, ou, para minha felicidade, me receber.

São Paulo merece mais que apenas uma crônica ou uma canção; seu espaço seria um blog, talvez o MySpace ou algum outro meio multimídia, uma enciclopédia em DVD ROM, mas, seja o que for, há que ser moderno, grande e, se possível, vertical.


fevereiro de 2007

domingo, 10 de julho de 2011

POEIRA II

Reminiscências de minha alma
Que forçosamente encontra raízes no chão rachado
Como é também rachado
O asfalto mal-cuidado da cidade onde vivo
Como também é rachado
O concreto mal-engendrado do prédio onde moro
Como estão também rachados
Os azulejos das paredes onde me abrigo

Uma crosta de poeira seca que vem do vento
Que seca e fere o interior de minhas narinas
Como a nuvem de poeira que não se dissipa
Na poluição da inversão térmica
Onde sequer há vento
Quando insisto em empurrar para dentro de mim
Ainda mais de fumaça seca de cigarros

Reminiscências de minha alma
Que me forçam olhar em volta e não ver mais nada
Apesar de todos os barulhos, cheiros e olhos que me cercam

Não, não chega a ser deserto
É tão somente sertão

(2004)

segunda-feira, 23 de maio de 2011

ASSOMBRAÇÕES

Essa é uma casa mal-assombrada
habitada por um espírito,
Sombras de um passado e
cômodos abandonados
E os fantasmas
que ventam nas minhas janelas
no outono e na primavera
não me contam nada
que eu já não soubesse
nas outras estações

As vozes e aparições
que preenchem a casa diariamente
não me fazem companhia,
não opinam,
mas interferem

Cada cômodo respira
ofega
arfa
chia
O quarto fechado
o banheiro pinho
A cozinha com a louça
há tanto tempo que já cheira
A sala fumaça
cigarro
As roupas acumuladas
a serem lavadas
porque não há mais porque usá-las
limpas
Lençóis

Maçanetas que não abrem
Portas que não fecham
Janelas
Basculantes
um ou dois vidros quebrados

Essa é uma casa mal-assombrada
Habitada por um fantasma
fumaça
lençóis
ruídos
interferência
E os fantasmas que cantam
por entre os vidros quebrados
dessas janelas
não me ventam nada
que eu já não soubesse

(2005)

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Praticidade (ou "o que eu penso sobre o que é romance de verdade")

Andando pela rua, com a barra da calça molhada por poças d’água, penso se não seria melhor estar acompanhado...
- Oras... mas que tipo de ser humano seria eu se achasse que seria bom para alguém andar na chuva?
Que desejaria que alguém sentisse frio?
Que pensaria que alguém gostaria de molhar os sapatos até as meias apenas para me fazer companhia?
Ah! Que se dane o romantismo e os musicais da Broadway!
Quero o meu amor aquecido, saudável e aconchegado!
Até que eu possa chegar até ela e, estando novamente seco, me aquecer ao seu lado e me aconchegar em seu seio.
Às favas as músicas de saudades e ausências!

Quero a praticidade tranqüila e morna de uma noite de inverno em um ambiente confortável, com um edredom para dois, pipoca (quiçá uma pizza), e um filme na tevê.

Dançar na chuva? Deixo isso para o Gene Kelly e o Fred Astaire... Nos filmes eles nunca ficam resfriados.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Uma Tarde em Higienópolis

http://www.4shared.com/file/XGsqFijc/Uma_Tarde_em_Higienpolis.html


Bate-papos, nerdices, risos e muita música em uma tarde sem fazer nada na casa do Diego, onde estávamos também presentes eu, o JP e o Phill.

As gravações têm ruídos de fundo (havia uns colegas do Diego trabalhando ao lado), algumas interrupções, mas acho que o que vale aqui é o registro desse clima descontraído e com cheiro de cueca!

Particularmente, achei a parte mais divertida do registro a conversa entre a música "Sonhos" (Peninha) e "Moça" (Wando), quando falamos dos compositores.

Espero que vocês, mais que gostar, se divirtam.

Seguem as músicas e créditos:

1. Esperando Aviões (Vander Lee)
2. Mucuripe (Fagner)
3. Lembranças (Kátia)
4. As Dores do Mundo (Jota Quest)
5. Sonhos (Peninha)
6. Moça (Wando)
7. Kriptonita(Ludov)
8. Bicho de Sete Cabeças (Geraldo Azevedo)
9. Trocando em Miúdos (Chico Buarque) + Bandolins (Oswaldo Montenegro)
10. A Voz (Vander Lee)
11. Palavras e Silêncio (Fagner & Zeca Baleiro)
12. Dezembros (Fagner & Zeca Baleiro)
13. Caleidoscópio (Paralamas do Sucesso)
(vinheta)

sábado, 2 de outubro de 2010

RIVAL (por Guilherme Bastilho)

Homem já é bicho bobo sozinho, e quando se junta, então?, fica complicado. Realmente, às dez da manhã de uma segunda-feira, entre um cigarro e outro, esperando alguém que chegaria mas não chegaria, não havia muito o que fazer senão conversar e - naturalmente - falar dos outros. Melhor do que qualquer exercício matinal, ouso dizer até que poderia se tornar uma atividade regular. Um esporte. Um esporte olímpico.

Enquanto esperávamos o bourbon, que no fim das contas não veio, olhávamos e não víamos nada além de gente velha. Bem mais velha. E isso em uma fila. Eu me senti exatamente no meio da História do mundo: somando, provavelmente havia mil anos para cada lado de onde a gente se encontrava. Exceto por uma figura que, justamente por se destacar das demais, chamou a nossa atenção.

Meu amigo é um grande conhecedor de música. E simpático que só. Eu queria ser simpático, mas só finjo ser comunicativo - o que me dá alguns minutos de conversa com qualquer um até o temido silêncio. Mas ele não... E falando de Ednardo, Zé Ramalho, chamou a atenção da moça. Não tão moça assim, é verdade, mas pelas circunstâncias tratava-se de uma garotinha.

E a conversa seguiu. E a tal moça - loira, calças apertadas (por Deus, a mulher foi embalada a vácuo entre uma embalagem e outra de Café Palheta), óculos escuros e certo charme. E a mulher se entrosa, mas se entrosa tanto que em meia hora todos já parecem velhos conhec... Não, velhos não, já existem velhos demais na história. Enfim, parecem se conhecer há muito tempo.

Homem já é bicho bobo sozinho, e quando se junta, então? Foi o que aconteceu. Entre histórias de desilusão que (não) terminariam em um apartamento em Pendotiba, começam aqueles movimentos de sobrancelhas que só nós, canalhas e cafajestes, conhecemos.

- Vai que é tua - disse.

Qualquer incentivo nessas horas é o estopim. Pensar com a cabeça de baixo é sinônimo de que vai dar ruim. Mas o circo está armado. A barraca eu não sei, e sinceramente também não me interessa. Mas encontrar a louraça belzebu provocante, cuja tatuagem bem localizada indicava o mapa da mina, só faltava piscar feito um neon apontando "AQUI!", era questão de tempo.

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O capítulo final da saga é breve. Tão breve quanto a perspicácia da nossa amiga, a quem encontramos cercada por seus amigos da terceira idade. Acho que fiz mal em sentar ao seu lado, pude ter atrapalhado ali uma noite de aventura, mas enfim... Katia Flavia é fatal, e saca da bolsa um álbum de fotografias onde mostra a família. A mente maldosa do homem pensa: "Ela apresentou a todos, filho, filha... Não mencionou o marido".

Não havia mencionado também que era uma porta. Mas hipnotizado pela tatuagem, o músico mostra tudo: "Aquilo é um violão. Aquilo é um baixo. Aquilo é uma bateria. Aquilo é um microfone. Tá vendo esse desenho aqui? O nome disso é casa. O que tem na casa? Cama, sofá, conhece?", e assim por diante.

Até que o papo aconteceu bem. Papo de pouco tempo, mas, papo sério, se fosse mais tempo ia dar ruim mesmo. Eu provavelmente me levantaria - se não caindo em gargalhadas, revoltado com o mundo. O metrô da Cinelândia era logo ali, questão de tempo até eu cometer o ato final: suicídio.

A pepeca foi dançar, chamou o amigo... O amigo foi atrás, atiçado pelas ancas largas da muchacha, que bem poderia ser de Copacabana, é verdade... Podia ser um show do Caetano Veloso. "VOCÊ NÃO ENTENDE NADA" se encaixaria perfeitamente, valendo inclusive para piadas babacas. Se o camarada dissesse que dois e dois são quatro, ouviria um "HÃ?"

O show do Capital Inicial proporcionou alguns bons momentos naquela noite, entre piadas que passaram batidas e algumas explicações e aulas básicas de conhecimento: chão, teto, mesa, cadeira etc. Dinho Ouro Preto, que havia caído do palco e batido a cabeça, deixou de ter a comiseração de Katia Flavia. Tudo porque ela sumiu... Meu amigo se deu mal. Quem disse que a pepeca "sentiu muito pelo Dinho" naquela noite?