segunda-feira, 14 de junho de 2010

CÍRCULO III

Esqueço do mundo
Escuto apenas o silêncio
Esqueço da morte
Lembro apenas do silêncio
Cego, profundo, largo
Vazio, imenso
Me largo de tudo
Me agarro apenas no silêncio
Me esqueço da vida
Me acudo no silêncio
Cego, profundo, largo
Vazio, imenso
Me esqueço da vida
Me agarro apenas no silêncio

15 de Junho de 1993

sexta-feira, 4 de junho de 2010

FUMAÇA



Meço minha paz por meus cigarros.
Se a brasa iluminar cerca de cinco centímetros ao redor
E se, do cinzeiro, eu conseguir ouvir o papel queimando
E se, às três da madrugada, ainda houver no maço o suficiente para chegar a manhã.
Aí sim. Estou em paz.

terça-feira, 18 de maio de 2010

BLANCHE

O teste psicotécnico diz que se eu não escolher o vermelho é porque tenho problemas.
Não gosto de problemas.
Não gosto de ter problemas.
Não gosto de perceber que posso ter problemas.
Não gosto de saber que tenho problemas.

Em contrapartida, não gosto de ver minhas escolhas guiadas por fatores
Que vão além do meu controle mais objetivo.
Que vão além das minhas negações.
Que vão além das minhas ênfases.
Que vão além da minha consciência.

Apesar de saber que essa mão _forte, grande e invisível_
que me empurra e me desvia
é também minha,
Me aflige constatar que não a controlo,
Que não a domino.

Fico no pêndulo destas instâncias psicológicas
Entre a pungência da inércia do que me fora automatizado
E a voluntária ilusão do controle.
Se somado a isso houver a providência (quase e talvez) premeditada do acaso
O que seria factual se torna inevitável e infalível armadilha.

Só que após me ver inelutavelmente capturado,
Tendo a preferir que tais forças
Que de tão incrustadas no meu formar definem o meu querer e agem sozinhas
Definam o rumo das ações.

É justamente quando elas decidem que tais estratégias
_fuga ou adaptação_
partem do racional.

É, eu tenho um problema.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

CIDADE IMPOSSÍVEL - de VICTOR HERINGER

Tenho enfim nas mãos o livro que tanto ansiei ter e ler.

A primeira análise crítica que vi desse livro foi um comentário de uma parente do autor questionando a ordenação dos capítulos. É uma premissa bastante interessante.

Vários teóricos (ou simples amantes ou meros curiosos) da literatura apontam como principal indicador qualitativo o primeiro parágrafo de um livro e este nos introduz ao universo do livro de forma quase bíblica, mas a sequência das frases já nos dá a clara impressão de que a tia do escritor tem lá uma certa razão de suas dúvidas e nos arremessa no miolo de uma obra que um leitor desses, de começo de século XXI, acostumado a Harry Potters, códigos disso e daquilo, segredos e fases da lua, poderia até virar o livro ao contrário tentando encontrar seu começo.

É uma obra desafiadora ao leitor, e o leitor não pode ter medo dela.

A imagem que tive de mim mesmo muitas vezes ao ler o romance(?) foi de estar no olho de um largo furacão, vendo tudo girar freneticamente ao redor e asfixiado pelo vácuo, mas de pé.
Algumas coisas mais leves se perdem e caem, mas a mesma leveza faz com que sejam inversamente sugadas de volta ao redemoinho, a essa simultaneidade caótica que só a tontura e a letargia causadas pela falta de oxigênio permitem que a percepção fique mais lenta de modo que se possa identificar cada elemento _inteiro ou despedaçado_ que gira não suspenso, mas preso no ar pela força desse vento.

O uso ininterrupto de uma verborrágica adjetivação descritiva, como se cada coisa no mundo _mais que existir_ devesse ser explicada. Cada coisa ou cada idéia de coisa?

Sim, todos os personagens expõem suas idéias. Não só expõem como as regurgitam, cismam, analisam, filosofam enfim. E dialogam com um sem-número de referências pessoais, intelectuais, musicais, canônicas e com o leitor. É bom que este esteja preparado, pois mesmo o sendo, ele pode facilmente se perder.
Nenhum deles é simpático. Nenhum deles é medonho. Não causam amor ou paixão ou pena (salvo Vicente, em determinado momento). O que motiva a acompanhar essa(s) história(s) de cada um deles?
Acho que a forma crua com que são retratados e a sensação de que eles, tão nada, tão desalojados dentro de si mesmos e perante os outros, nos dão um lugar para estar e _menos que amor, paixão, pena, simpatia ou asco_ sentimos aquela mesquinha vontade de acompanhá-los e saber até onde eles vão como em um reality show ou uma rede social de voyeurismo como Orkut, Twitter, facebook ou seja lá o que o valha.

Várias perguntas me vêm enquanto me desdobro entre a multidão de vidas que passa por minhas mãos entre as folhas...

Seria uma obra esquizofrênica ou é um autor desesperado/entusiasmado com uma necessidade plurissensorial externada/expressada por rodapés digressivos?

Ainda não sei. Um único romance é pouco para comparar o autor a ele mesmo. É um livro de estréia, um teste para autor e leitor, de mão dupla. Eu testei o livro e ele me testou, me usou como cobaia de um experimento que percebo não ter resultado por ainda estar em suas observações e anotações iniciais.

Como disse antes de "desafio", retomo a isso. Deu-se o embate, ambos sobrevivemos, mas ainda não terminou.

Que venha o segundo round, Herr Heringer!

QUASE

Tenho enfim nas mãos o livro que tanto ansiei ter e ler.

Começo a ler e me surge um desafio inesperado: Analisar uma obra que reconheço. Que me foi dita. Que eu espreitei pelas janelas da criação.

Tento não pensar na minúscula varanda que ilustra a capa, que já fumou inúmeros cigarros, inclusive meus.
Tento não ouvir sua voz dizendo aquelas sequências de palavras no seu sotaque de branco fluminense serrano repleto de um léxico quase abandonado, mas alimentado quase propositalmente por diálogos com os falares mezzo parnasiano mezzo barroco protestante prostituto interiorano do ex-bancário filho do pastor e o suburbanismo empedernido do negro filho do militar advogado mais velho que, na oralildade, soavam quase sem sentido mesmo naquele contexto que beiravam o surreal daquela pequena sala em Icaraí.

Sei muito bem que seus diálogos não se resumiam a estes e nem neste espaço, mas só posso ter como certeza de referências o que presenciei e participei.

Não rememorar trajetos observatórios pela orla niteroiense e os nomes de personagens que surgiam entre uma ou outra tragada.

Me dou conta de que preciso reaprender e ler para lê-lo. Não. É um processo ainda diferente. Preciso aprender a me cegar para lê-lo.

Espero conseguir.

domingo, 27 de setembro de 2009

Feedback

Se cada vez que eu pensasse em você, você retribuísse com um décimo do carinho que sinto, eu poderia me considerar alguém muito amado.

A verdade é que já não sei mais se acredito tanto nessa história de que basta amar. Acreditei nisso por tanto tempo que pensei até ser feliz assim. Feliz e completo. Sou (era) um homem que ama(va). Isso me fazia pensar que talvez eu fosse a única pessoa sobre a Terra conhecedora do segredo franciscano que faz alguém se sentir pleno ao consolar, compreender, amar, dar, perdoar sem esperar reciprocidade (os mais moderninhos devem chamar a isso de “feedback”).

Mas hoje venho percebendo que também é bom ser amado. Talvez seja não mais que alguma inveja dos que têm isso para si, mas a impressão que me dá é a de que ainda falta algo, algum degrau que impede de chegar ao topo, como se até agora eu estivesse sendo premiado em alguma categoria especial para handicapés.

É muito ruim se sentir tão pouco.

“Don't you want somebody to love?
Don't you need somebody to love?
Wouldn't you love somebody to love?
You better find somebody to looooove!”


Começo a pensar que isso pode ser realmente uma idéia a se pensar, cara do avião...

sábado, 26 de setembro de 2009

PSEUDICES (ou "Citações vãs")

Sardas e pintinhas podem se tornar um problema sério... mas não para quem as possuem. Afinal, estes já conhecem de cór todos os tipos de cuidados que devem ter com suas peles, proteções, etc. O problema é para quem as olha. E piora se, além de olhar, você as admirar.

Compor um texto que fale sobre esses pequenos e múltiplos detalhes estéticos sem cair em nenhum clichê ou idéia já anteriormente usada é uma tarefa ingrata, ainda mais se já ocorreu até mesmo uma admissão do autor em já ter usado/gasto certos recursos em elaborações anteriores...

Listemos isso:

1. Comparar com aqueles joguinhos de ligar os pontos: USADO
2. Comparar com estrelas e simular "constelações": USADO
3. Fingir contar (sim, pois esse tipo de coisa só se finge mesmo) cada uma delas: USADO

Poderia também me valer do clichê máximo que é a denominação francesa ("grains de beauté") e falar de como esses grãos deixam ainda mais bela a visão. Mas também teria que colocar nisso o carimbo de USADO. É quando sinto raiva dos compositores.

Assim sendo, me debruçarei sobre essas velhas idéias em citações. É o que me resta.

Começo pela última idéia citada. Os tais "grains de beauté/que vão ajudar você/a encontrar/o caminho de casa" (CÉU, 2009). É, eu poderia até usar isso, uma vez que estou longe da minha, mas a questão é que não concordo muito com essa idéia como ela foi colocada nesse caso, visto que João e Maria usaram desse recurso para marcar o caminho e os passarinhos comeram e sabemos todos o resultado disso (passaram um bom tempo aprisionados por uma bruxa).

Se fosse para falar de guias para casa, ainda preferiria a imagem das estrelas/constelações, que estão sempre lá no firmamento e sempre guiaram de modo certo os navegadores, mesmo os perdidos. Um ponto sem falas para observação.

O fato de eu estar longe também me impediria de usar as outras figuras como contar ou ligar os pontos, pois isso só pode ser feito presencialmente. Não cabem na idéia do texto.

Mas a distância pode me ajudar (e até me resguardar) no uso de uma imagem que não me recordo de a ter utilizado antes. As artes plásticas!

Alguém me perguntará, coberto de razão: "Mas desde quando comparar a beleza de uma mulher a uma pintura é novidade?".
Realmente, novidade nenhuma, mas posso me dar o direito de arriscar fazer diferente, certo?

Pois bem... Vamos então ao cerne a partir desse mote.

Eis que me encontro distante da terra que resolvi adotar como casa. Ainda tenho poucas referências dela, mas uma imagem em especial me leva à consciência de que meu lugar agora é lá. É um quadro. Um belo quadro impressionista, desses cuja técnica empregada _o pontilhismo_ nos leva a só perceber a grandeza do todo quando observamos a uma certa distância. As nuances do todo resultam de uma certa não-intenção de uma imagem total ao se perceber todos aqueles pontinhos de pequenas variações tonais tão juntinhos...

Os impressionistas eram muito corretos nessa intenção de deixar que os olhos do público interpretassem as intenções dessas cores sem linhas, tão incertas... pena que às vezes o espectador seja míope e que quando se aproxima mais para perceber, só consiga ver os pontinhos.

Mas sim. É isso que ela me é. Um quadro que impressiona o meu olhar, cuja beleza se faz ainda mais com pequenos pontinhos, mas que eu só posso admirar assim em estando longe. Em estando perto, os temas se tornam outros. Talvez seja melhor assim. Em estando perto, são um monte de pontinhos confusos!