sábado, 1 de julho de 2023

Rever

 Ao te rever, não me pergunte o que eu gostaria de fazer. Se você me perguntar o que eu gostaria de fazer, eu diria que gostaria de te levar à minha cidade, não para conhecer os lugares históricos ou mesmo turísticos que ela possui. Eu te levaria aos meus lugares preferidos e contaria a história de cada um deles do ponto de vista mais pessoal possível. Diria coisas como "ali, antes de ser construído esse museu, era um mirante e meu pai trazia a mim e ao meu irmão para descemos essas ladeiras de bicicleta e de patins", "ali, naquele prédio, foi o meu primeiro emprego de carteira assinada, no qual não durei dois meses", "ali era uma loja de departamentos, onde comprei meu primeiro disco, e foi um dos Beatles", "esta é a estátua da pessoa que dá nome à rua em que eu morava lá onde nos conhecemos... sim, ele é daqui", e iria tentar te apresentar uma cidade histórica te enchendo com memórias afetivas. Por fim, eu te levaria para ver a Baía da Guanabara no ponto que acho mais bonito,  vendo a capital inteira de frente e te contando por que eu precisava voltar e toda a minha vida até aqui, para que você soubesse mais de mim, de quem eu sou e de onde vim, para tentar te fazer gostar de mim mais uma vez.

E eu te diria que vinha observando você e achando muito bonito o que se tornou e que eu gostaria que você soubesse disso.

E, ao te rever, não me pergunte tampouco o que eu pretendo fazer. Se você me perguntar o que eu pretendo fazer, eu direi que pretendo ficar te olhando o quanto eu conseguir, para reter ainda mais essa imagem que nunca esqueci e que conseguiu estar ainda mais bonita do que sempre foi. Eu direi que pretendo lembrar do cheiro dos seus cabelos, do timbre da sua voz e da cor dos seus olhos quando olha para mim. Eu direi que pretendo ficar o tempo todo em silêncio, contrariando tudo o que eu gostaria de dizer e de te contar, e que eu pretendo que esse silêncio disfarce o tremor na minha voz e toda a ansiedade acumulada só por saber que estaria te revendo e que seria mais prudente - para mim e para você - se eu apenas ficasse em silêncio. 

Mas se ao te rever você me perguntar o que eu vou fazer, eu não responderei. Eu apenas seguirei estando perto de você o quanto eu puder, o quanto eu conseguir sem ficar dando muita bandeira. E, quando você me perguntar novamente o que eu vou fazer, eu sorrirei e direi "eu vou para casa". E te darei um abraço, beijarei seu rosto e direi "foi bom te rever, viu?". Direi "fica bem e aproveite bastante", e isso será tão sincero quanto todas as coisas que eu gostaria ou pretendia, pois será dito com o mesmo amor que sempre existiu. E eu estarei feliz simplesmente por ter podido estar contigo. 

E, talvez, chegando em casa, eu escreva sobre isso tudo. Talvez eu até envie esta carta para você. Mas, talvez, eu não envie. Talvez eu sequer escreva. 

Pois, talvez, eu saiba (ou, pelo menos, goste de acreditar) que você já sabe de tudo isso.

E obrigado por me permitir estar contigo. Significa muito.

Esteja bem. 

Um beijo.

E seja tão feliz quanto você puder ser, quanto você conseguir ser, quanto eu gostaria que você fosse. Quanto eu desejo que você seja.




segunda-feira, 11 de julho de 2022

DA LEVEZA (2)



Dizer que me apaixono por ela todo dia seria não um mero exagero, mas uma mentira.
Mais que uma mentira, seria uma farsa.
Pior que uma farsa, seria uma injustiça.

Mentira, pois não condiz com a realidade.

Farsa, pois teria o intuito de enganar.

Injustiça, pois, deliberadamente, desconsideraria toda a história e, de modo ainda mais indevido, toda a participação dela nesse processo.

Toda a construção, paulatina, paciente, contínua, perene, tranquila.
De confirmações, divergências, aprendizados, impasses e desafios.
Do quotidiano das pequenas coisas.
Das pequenas palavras.
Das pequenas descobertas.
Dos pequenos esquecimentos.

De algo que se desenvolve, amadurece e, mesmo de modo díspar, se fortalece.
Mesmo que seja somente aos meus olhos.
Mesmo que nada, efetivamente, se modifique.
Mesmo assim, cresce e permanece.

Dizer que me apaixono por ela todo dia seria uma mentira.

Tal coisa não “acontece” todos os dias, pois ela vem de todos os tantos dias anteriores.
E se torna natural. 
E deixa de “acontecer” para “ser”. 
E é.
Mesmo sendo apenas para mim.

Mas certas coisas, quando se estabelecem e são, não precisam mudar.
Mas é preciso cuidado, respeito, espaço.
E vamos regando e cuidando e podando e colhendo os frutos que surgem e nos alimentando deles conforme as ofertas e as necessidades. 

Dizer que me apaixono por ela todo dia seria não um mero exagero, mas uma mentira.

Eu me apaixono por ela a cada dois ou três meses.

E, entre um desses momentos e o outro, eu me permito estar satisfeito apenas com o fato de eu me apaixonar por ela.
Mesmo sendo apenas para mim.

modelo da foto: Marcella Gonçalves

sábado, 17 de julho de 2021

30 YEARS AFTER MY FIRST APOCALYPSE

A mídia sempre se preocupou com o fim do mundo... Desde os tempos mais antigos, há relatos de previsões sobre tal acontecimento. Durante eras imperou a ideia de alguma grande intervenção divina, afinal a ciência ainda não era algo estabelecido e o homem talvez ainda não se achasse capaz de fazê-lo por si só, até porque ainda eram poucos indivíduos sobre o mundo. Concentrar-me-ei nas épocas e nos medos que presenciei. Quem foi, como eu, criança no finalzinho dos anos 1970 e em boa parte dos anos 1980 deve se lembrar do grande medo da época: a hecatombe nuclear! A guerra fria mantinha em nós o medo de não haver um amanhã porque alguém das grandes potências _EUA e URSS_ poderia apertar a qualquer minuto o botão que desencadearia a guerra final. Dois filmes estadunidenses, ambos produzidos no ano de 1983 retratam muito bem esse medo: “Jogos de Guerra” (War Games, de John Badham) e “O Dia Seguinte” (The Day After, de Nicholas Meyer), sendo que este segundo causou uma comoção tremenda, foi um verdadeiro choque. Vários músicas populares versavam sobre o assunto que era também recorrente no seriado “Além da Imaginação” (The Twilight Zone), em um dos episódios da época, chamado “Um Pouco de Paz e Tranquilidade” (A Little Peace and Quiet) a protagonista para o tempo no momento em que os primeiros mísseis nucleares são lançados (perdão pelo spoiler). Mais aterrorizante que propriamente pacifista. Agradecimentos a Wes Craven. Já no final dos anos 1980 até os anos 1990 termina a guerra fria, cai o muro de Berlim, Gorbachev desmonte a União Soviética e começa a revolução tecnológica. O mundo se via diante de um novo dilema: o avanço tecnológico industrial dava saltos cada vez maiores, pessoas perdem seus empregos para sistemas automatizados, o computador pessoal invade as casas, o conceito de redes mundiais de comunicação digital se estabelece. AS MÁQUINAS DOMINARÃO O MUNDO! Ok, Asimov já pensava nisso em 1950, mas agora a coisa era real! Uma coisa interessante sobre os dois filmes mais emblemáticos dessa época é que eles só fizeram sucesso realmente muito tempo depois de produzidos, passando boa parte de suas “vidas” sendo considerados cult até se tornarem populares com o aparecimento do videocassete e o novo mercado de videolocadoras, que facilitou o acesso de vários filmes ao grande público. São eles “Blade Runner – Caçador de Androides” (Ridley Scott, 1982) e “O Exterminador do Futuro” (The Terminator, de James Cameron, 1984). A passagem do século XX para o XXI trouxe consigo uma nova preocupação mundial: o desequilíbrio ecológico. Mais uma vez algo que já era falado desde os anos 60 só que, assim como a paranoia tecnológica, o ser humano percebeu que a coisa era pra valer e não apenas chilique de um bando de hippies cabeludos. Filmes-símbolo: “O Dia Depois de Amanhã” (The Day After Tomorrow, de Roland Emmerich, 2004) e o documentário de Al Gore, “Uma Verdade Inconveniente” (An Inconvenient Truth, 2006). Vale dizer que Al Gore ganhou o Nobel da Paz em 2007 devido a seus esforços pela divulgação da causa ecológica. Outros autores exploravam outras formas “naturais” de destruição do mundo... alguns pensavam em um asteroide, como no tempo dos dinossauros, outro em vulcões ou maremotos... sempre “a natureza se vingando” (diria Fernando Pessoa sobre isso “Só a Natureza é divina, e ela não é divina.../ Se falo dela como de um ente/ É que para falar dela preciso usar da linguagem dos homens/ Que dá personalidade às cousas, E impõe nome às cousas.”), alguns inventavam doenças e epidemias, mas estas eram sempre controladas, a Natureza não. E cá estamos nós já na segunda década do século XXI, os anos 10 e eis que ressurge com força extrema algo que era uma temática para lá de alternativa e restrita aos filmes “B” de terror dos anos 60 aos 80: o apocalipse zumbi! Mortos-vivos que vagam em bandos com o único intuito de alimentarem-se de cérebros. Agora eu vou dizer uma coisa muito séria para vocês, caríssimos amigos: ISTO TAMBÉM JÁ ACONTECEU! O mundo hoje alcançou 7.000.000.000 (sete bilhões) de habitantes. Somos, definitivamente, a espécie animal com crescimento mais descontrolado da história do planeta. O mundo inteiro, inclusive os chamados países desenvolvidos, sofre com desemprego, problemas de educação, alimentação e saúde para todos. A comunicação mundial se dá de modo imediato e fragmentado, todos têm acesso a tudo e ninguém sabe de nada. Boa parte das pessoas apenas reproduz o que é dito por outros. Mesmo as academias vêm padecendo de identificar o que é produção e o que é reprodução. Cada vez mais pessoas se aliam em grupos sejam políticos, religiosos, de torcedores de algum time, de fãs de algum artista, de gente que segue alguma dieta alimentar... A verdade que meus olhos veem através das lentes de meus óculos é triste. O mundo está dominado por zumbis. Por seres sem capacidade de discernimento que vivem de comer os cérebros alheios a transformar a todos em seus iguais... O que fazer em um mundo assim? Eu resolvi virar professor. Sei que não vou salvar o mundo do apocalipse já instalado. Minha missão não é tão bonita quanto a de meus antecessores. Eu estou aqui para tentar ajudar a manter o cérebro de outras pessoas ainda em suas funções, por mais que elas sejam mordidas pelos zumbis da televisão sensacionalista, da internet procrastinadora, das músicas que transmitem ideia nenhuma. Eu estou aqui para treinar sobreviventes.

quinta-feira, 11 de julho de 2019

O SUFICIENTE


Gosto dela.

Meu ID grita que eu gosto dela desmesuradamente. O superego sabe: gosto dela e isso é mais que o suficiente.

O eu lírico fermenta e derrama e esparrama esse gostar em uma série crescente de superlativos  hiperbólicos  e sinônimos e polissíndetos. O eu revisor enxuga todos os excessos para o que é suficiente para transmitir a ideia com exatidão.

O que importa: gosto dela.

Talvez até dissesse que gosto dela a ponto de gostar até das discordâncias, mas a razão me aponta que isso não é gostar, isso é respeitar (e isso é o básico).

Talvez até dissesse que gosto dela a ponto de expor a ela minhas ideias, opiniões e dúvidas, mas isso tampouco é gostar, isso é confiar.

Talvez até dissesse muitas coisas que se confundem com muitas outras, mas...

...talvez eu diga apenas que esse gostar reside no somatório de muitas coisas que se acumulam positivamente. Mesmo as eventuais discordâncias. Mesmo os eventuais silêncios.

Gosto dela o suficiente para dizer-lhe isto sem medo de ser incompreendido e sem me preocupar em mudar muita coisa, apenas na melhor forma de expressar da forma que é.

Gosto dela.

E isso é o que importa.

E isso é mais que o suficiente.

(11-07-2019)

(foto: autobordado de Marcella Gonçalves, @vie.cella [instagram])

domingo, 17 de dezembro de 2017

PRECISAMOS FALAR SOBRE PABLLO VITTAR (de novo)

Eu jurava que era algo já explicado, mas, antes, vamos colocar uns critérios para não virar uma discussão sobre o sexo dos anjos*.

[*trocadilhos inclusos, voluntários ou não] 

1. O que um homem hétero sabe sobre as questões LGBT, se ele não pertence a esse grupo? R.: Ele passa a saber sobre isso do mesmo modo que um professor de Geografia sabe sobre as monções indianas, mesmo sem nunca ter estado lá, aliás, tudo, menos dizer que o cheiro da chuva é agradável, pois isto seria uma subjetividade e, se disser isso, salientar ser uma impressão geral e consensual de relatos de quem vive a situação: Estudando MUITO sobre o assunto e se atendo ao que é objetivo, respeitando as subjetividades de quem vive tais impressões.

2. Caso haja insistência no falacioso argumento do "lugar de fala", eu vou ter que apelar, logo de início, para o meu como, no mínimo, alguém que vem trabalhando no setor artístico, mais especificamente com música nos últimos vinte e cinco anos e com uma visão não apenas artística do assunto, mas sócio-política.

3. Como eu já falara sobre o tema, deixarei o texto referente linkado no primeiro comentário. Tratarei justamente do que evitei no anterior.

Pabllo Vittar virou o foco dos holofotes das redes de distribuição de ódio... OPS! Errei! leia-se "das redes sociais" novamente ao ter a música que interpreta escolhida como "música do ano" no programa do Fausto Silva.

Mas quem diabos dá importância a um prêmio distribuído pelo Faustão?! Bem, essa resposta existe, mas vamos guardá-la para uma próxima oportunidade e focar no que importa: Os renovados ataques a Pabllo Vittar, com suas requentadas justificativas e suas igualmente pífias defesas, e do que tratarei hoje são os ARGUMENTOS.

Como já citado, os aspectos de critérios estritamente musicais já foram explicados, então, primeiramente™, foquemos no argumento mais visto, que não se debruça nisso.

"Fred Mercury, Cazuza, Ney Matogrosso também eram/são gays e ninguém nunca ligou pra isso e são ícones até hoje".

Sim, são ícones e musicalmente muito respeitados, mas adivinhem qual é o ponto sempre que alguém resolve criticá-los? Exatamente, a sua sexualidade.

Porém, há um dado importante aí: nenhum deles, tirando uma certa fase da carreira de Ney Matogrosso, era "queer" e o próprio Ney descarta essa definição. Eram homens gays, e isso faz com que essa comparação caia nos chamados "falso paralelismo" e "falsa dicotomia". São duas falácias argumentativas (viram, gente? existem falácias além do espantalho e do ad hominem!) que fazem com que dois elementos que não possuem os mesmos critérios sejam avaliados sob um mesmo prisma.

Assim, para sermos realmente justos, temos que (1) estabelecer critérios e (2) avaliar cada critério estabelecido separadamente.

O ponto principal, no que se refere à homo/transfobia, é que Pabllo Vittar só teria comparação com outras figuras midiáticas que também adentrassem no espectro da transexualidade. É aqui que eu invoco a carta ROBERTA CLOSE BRONZEADA. 

As novas gerações, especialmente os nascidos nos anos 1990 e após, possuem, no máximo, uma relação de "ouvi falar dela" com a, até o aparecimento de Vittar, mais famosa transexual do Brasil. Muitos jovens sequem ouviram seu nome.

Pois bem, é consenso que todo "homem cis hétero" ficou, por assim dizer, confuso quando essa figura chegou aos holofotes. "Era mesmo um 'homem'? Não é possível!" e indagações e interjeições de surpresa sempre fizeram parte da reação popular diante dela. Não esqueçamos que estamos falando dos anos 1980 e as nomenclaturas eram outras, muitos dos termos hoje usados sequer existiam. Um expoente disso foi a chamada de capa da revista Playboy, quando ela posou para suas páginas, sendo a primeira vez no mundo que uma mulher trans foi fotografada para a revista: "Incrível. As fotos revelam porque Roberta Close confunde tanta gente". E, mesmo assim, Roberta Close, que também sempre teve uma atuação muito forte, nunca se esquivando de perguntas sobre o que era essa "novidade" (o transexualismo), como isso funcionava em uma pessoa, como eram questões pessoais e familiares, sofreu muito preconceito a ponto de decidir simplesmente sair do país porque aqui não dava mais e, há muitos anos, não responde mais a perguntas que já não mais eram curiosidades, mas tornaram-se extremamente invasivas.

Só que, ainda assim, Roberta conseguiu construir uma bastante sólida carreira de modelo (para os padrões da época... ela nunca desfilou para a Victoria Secret's, como nenhuma outra brasileira então). 

O meu ponto é: Roberta Close era uma modelo de sucesso, uma quase unanimidade como ícone de beleza feminina, mas ela também se arriscou como atriz e cantora. Ela foi péssima nessas duas coisas. Seu talento para fotografar e desfilar era incontestável, mas uma verdadeira tragédia em atuação ou canto. Ela sabe disso. Ela reconheceu isso. Ela não investiu mais nisso. Ela sempre será lembrada como a incrível modelo que transpassou as fronteiras da identidade sexual, mas nunca será lembrada como péssima atriz ou cantora. Isto simplesmente é uma nota de pé de página em sua biografia.

Já o talento de Vittar em sua área de atuação é tremendamente discutível.

Falemos então do metier de Pabllo: a música, e eu só posso compará-la a uma outra figura  que ainda é, para mim, insuperável no setor "queer" brasileiro. Vamos falar um pouco de Rogéria.

A maquiadora que tinha um talento que ia muito além dos pincéis, rímeis, blushs e batons. Uma voz potente, um repertório impecável, uma presença marcante. Rogéria, a travesti que desancava e desmascarava a "macheza" de Jesses Valadões e companhia em suas entrevistas. Um símbolo de resistência que pegou o pão que o tinhoso amassou, transformou em iguaria gourmet e comeu. Passou por muitas e péssimas o Astolfo Pinto, que era, na verdade, ele sim, o alter ego de Rogéria, que, antes de Madonna, nunca precisou de sobrenome. Rogéria se bastava. 

Qualquer músico de barzinho reconhece: Rogéria era uma artista TREMENDA. Já Pabllo Vittar...

Porém, mesmo assim, Roberta Close e Rogéria sempre sofreram uma carga enorme de preconceito por conta de serem o que eram sexualmente. Ainda que as críticas em relação ao seus trabalhos fossem sempre e merecidamente muito positivas, em algum momento acontecia a adversativa com o preconceito disfarçado de jocosidade: "mas é um viadão".

E Pabllo? Pabllo é a cara da nova geração de um grupo de excluídos que se perdeu no tocante a como se posicionar. É a face visível de uma geração marcada por polarizações extremas, radicalismos, ataques e defesas cegos. Quem não é completamente a favor do que eu digo se torna, automaticamente, meu inimigo mortal. Quem se enquadra minimamente no que eu penso não pode ser criticado sob nenhum aspecto. Isto se dá em qualquer lado. 

O que acontece se alguém demonstrar que a figura midiática de Pabllo Vittar é tão somente uma capitalização de um determinado nicho de um mercado que já sofre imposições desde sempre? A figura e as canções de Pabllo, tal como Anitta, Safadão, Kevinho, Valeska, Psirico e tantos outros vendidos como "populares", não são nada além do que o mercado sempre fez, desde Gretchen, Ritta Cadillac, É o Tchan e outros tantos sempre fizeram: vender uma imagem hipersexualizada e objetificada da mulher. A afirmação de uma sexualidade com liberdade é importante? Sim, muito. Mas por que será que, quando a mídia celebra figuras femininas, é exclusivamente para vender corpo e sexo? Por que será que mesmo a figura de Pabllo Vittar, que talvez tenha coisas muito importantes a dizer sobre a sua condição, só aparece midiaticamente como um corpo sensual que vai rebolar e, aparentemente, nada mais que isso? Porque os donos do mercado são mais espertos que eu e vocês. Porque eles sabem até mesmo fazer com que vocês acreditem que o que eles produzem, selecionam e distribuem é "popular". Porque eles são víboras que sabem camuflar sua pele.

"Ah, mas tem uma música de Pabblo Vittar que fala da luta LGBT!" Sim. Uma. Que praticamente ninguém fora do núcleo LGBT conhece. Que muita gente do próprio núcleo desconhece. E não foi esta música a vencedora de "música do ano" interpretada pela voz de Pabllo Vittar. Por quê?

Então sim, muita gente, mas muita gente mesmo vai usar a sexualidade de Pabllo Vittar como um ingrediente a mais para criticar o seu trabalho musical, ainda que sejam duas coisas completamente desconexas. É assim que preconceituosos agem, aproveitam qualquer brecha minimamente válida para derramar seu ódio contra os aspectos que reforçam o preconceito. Mas será mesmo que a defesa da pessoa Pabllo Vittar  deve "passar o pano" sobre todos os poréns que a sua carreira artística possui? 

Muito particularmente, eu acho que Pabllo Vitar poderia ter uma atuação muito positiva e com muita visibilidade em várias áreas. É uma figura carismática, alegre, expansiva, e eu duvido muito que não se saísse muito melhor que a insossa Fernanda Lima se comandasse um programa de televisão. Mas a mídia permitiria que Pabllo tomasse o lugar de uma Fernanda bonita, loira, magra, rica, casada, mãe, e lhe daria a possibilidade de ser maior que ela? Talvez uma Xuxa só para adultos? Hoje, isso não aconteceria. 

Por falar em Xuxa, ela é uma péssima cantora, mas ninguém liga, sabem por quê? Porque ela não é cantora.

Será que permitiriam a mesma suspensão de crítica caso Pabllo Vittar apresentasse um programa e, vez ou outra, cantasse (mal, como de fato canta)?

Aí, só há como conjecturar...

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Ok, vamos lá.

Buscarei seguir a estrutura da sua postagem até o quanto possível, o que faz com que eu tenha que iniciar com uma breve apresentação pessoal acerca do que toca o tema.

Estudei em escola pública a minha vida escolar e acadêmica inteira, excetuando o Fundamental I, à minha época chamado de "primário", que foi feito em uma escolinha de bairro e um ano em um colégio particular e mais um em um colégio comunitário, mas o primeiro e segundo graus (hoje, Fundamental II e Médio) foram em escolas estaduais do Rio de Janeiro e universidades federal e estadual, no RJ e no CE, respectivamente.

Sou professor por escolha, formação e atuação há cerca de 15 anos, trabalhando sobretudo na rede particular e, ocasionalmente, em projetos geridos pelo estado. Não apenas acompanhava, como era participante ativo de debates acerca da estrutura do ensino e da formação do profissional professor (sem mais tanto afinco no último ano por questões pessoais que fogem ao tema), e era inclusive palestrante convidado em escolas, sobretudo sobre Direitos Humanos e afins.

Sou de uma família de professores. Mãe professora, irmãos professores, ex-mulher professora, tias e primas professoras. A docência parece ser um gene dominante nos Borges.

Ter tido uma formação inteiramente feita em instituições pública me faz, além das minhas prerrogativas pessoais, a ter uma grande consciência de que sou um fruto do trabalho e do investimento da minha comunidade. Meus estudos foram quase integralmente pagos pelos impostos de cidadãos como eu e não estar atento a isso na minha carreira não é apenas equivocado como tremendamente injusto.

Dito isto, é preciso entender que a luta por melhorias no sistema de ensino nacional é algo que já acontece há mais de 25 anos.

Meu primeiro contato com a LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação) foi em 1992 (ou 1993, perdoem a falha de memória), quando fiz um ano de curso pedagógico, ainda no Segundo Grau. Eram poucos anos após a promulgação da Constituição, em 1988, e esta AINDA ERA UM PROJETO e mudava radicalmente o sistema anterior. É preciso salientar que, quando iniciei os estudos escolares, criança, ainda era o regime militar. Não havia PCNs (Parâmetros Curriculares Nacionais), apenas um projeto disto e já era considerado um extremo avanço.

Ao ingressar na universidade, um "sistema único" ainda era mera discussão, o velho vestibular ainda era considerado como quase imutável. Mudou. Hoje há o ENEM, que ainda não é o melhor dos sistemas, mas foi outra conquista gigantesca e volta a estar sob ameaça, querendo-se retornar a um sistema que se pauta pela eliminação, não pela inclusão.

Entre a LDB de 1996, fruto da constituição de 1988 e sua última modificação, em 2006, muita coisa mudou, a esmagadora maioria delas para melhor, se for considerada a letra da lei. Muito ainda deve ser mudado, sem dúvida, dado acima de tudo o dinamismo das mudanças sociais.

Eu sou fruto de um currículo antigo. Na minha grade não havia Artes ou Sociologia, o que é lamentável.  Passei por dois colégios profissionalizantes e boa parte de meus colegas advindos dela possuem apenas os empregos de níveis técnicos, pois essa estrutura de ensino trava e bloqueia inclusive o acesso a universidades que teoricamente seguiriam as capacitações técnicas. Uma piada comum sobre a minha velha escola é que "o Henrique Lage forma funcionários da CERJ (hoje Ampla), da TELERJ (hoje Oi e afins) e músicos de barzinho". Eu saí de lá músico de barzinho. E lá não tinha curso técnico de música.

Durante a minha formação acadêmica, percebi o quanto havia de diferente  entre a lei e sua aplicação, tanto em relação ao sistema (governo e interesses das instituições privadas) e até mesmo pessoais, o que inclui, acima de qualquer coisa, a questão da formação do professor.

Dizer que "arte é fazer desenhos", "educação física é jogar bola" e "filosofia é ficar batendo papo", "sociologia nunca me serviu para arrumar um emprego" só demonstram como não é possível modificar um sistema sem que a filosofia social seja modificada primeiro e, para que esta mudança se dê, só existe um caminho: ampliar a educação através de profissionais capacitados. Entretanto, o que se vê é, apesar do extremamente alardeado número de universidades e vagas ter aumentado "nunca antes na história deste país" durante os governos Lula e Dilma (principalmente Lula), a proporção de formação de profissionais docentes sofreu uma grande queda. Esquece-se de dizer que boa parte dessas novas faculdades está formando "técnicos especialistas".

Haver uma profusão de maus profissionais, que não seguem as exigências curriculares, não é mais do que o fruto direto de um sistema que ainda tem por meta manter o pobre em condição subalterna e privilegiar quem já tem privilégios, ainda que se maqueiem algumas espinhas muito aparentes da face do sistema.

Este é um dos pontos mais tenebrosos das novas medidas: a efetiva invalidação das licenciaturas (ainda que disfarçada eufemisticamente de "admissão por saber notório").

Se já tem sido complicado ter um ensino de qualidade com quem tem obrigatoriamente que estudar Psicologia Evolutiva (ou seja, como lidar com a mente de crianças e adolescentes em transição), Didática (que vai desde como segurar um giz até como avaliar um livro), Estrutura e Funcionamento do Ensino Fundamental e Médio (que explica o passo a passo do seriamento de conteúdos e, efetivamente, as leis que regem o sistema educacional), imaginem ter ministrando aulas quem nunca passou nem perto disso. Imaginem ter aquele pastor amigo do diretor dando aulas de Filosofia (visto que estas serão "flexibilizadas", aliás, eufemismo máximo dessas propostas).

Não há como considerar de modo algum um pacote arbitrário e verticalizado. Certamente as vozes da sociedade e das comunidades devem ser ouvidas, o que inclui alunos, pais e até o Alexandre Frota, mas as considerações dos especialistas (e aí eu me incluo) foi completamente abafada em nome de interesses que nada têm a ver com melhorias de condições da população, menos ainda do crescimento educacional do país.


Para citar exemplos, verifiquem se em qualquer país minimamente desenvolvido existe a mera menção da retirada (ops! "flexibilização") de aulas obrigatórias de filosofia até o fim do segundo segmento (ou seja, o passo anterior à universidade). Verifiquem se há alguma "opcionalidade" em relação à educação física. verifiquem se os cursos técnicos têm, nesses países, a função de substituir algum grau do ensino básico.


Mesmo as grades curriculares da educação acadêmica no brasil são dignas de piada, aí sim, por sua falta de uma verdadeira flexibilidade. Estudantes de Jornalismo que não passam um semestre sequer nas cadeiras de Letras para aprender Português e Semântica. Estudantes de Física que não estudam Filosofia. Estudantes de Letras  que não estudam Lógica. Estudantes de Direito que não estudam Análise do Discurso. Estudantes de Música que não estudam Física (como Acústica).

Não existe nenhum ponto positivo nessas medidas anunciadas e estranhamente retificadas.

Eu poderia falar não apenas horas, mas semanas inteiras abordando cada ponto deste assunto e não será uma conversa de bar, será um esclarecimento em que eu precisarei de outros especialistas e de um retroprojetor e uma ponteira laser. O que não há é como ficar de achismos que se pautem no lugar-comum. Não é uma questão de "problematização". Medidas já foram propostas por gente como Chico Alencar (que é meu representante desde que eu possuo um título, principalmente por conta disso) e vêm sendo sistematicamente obliteradas pelos interesses obscuros de quem realmente domina o país.

Uma mudança que já vem sendo mais do que adiada não se resolve na base de polemização e canetadas, mas, se há algum ponto positivo nisso tudo, é que o assunto foi trazido à baila. Porém, já sabemos o quanto a informação neste país é manipulável, principalmente pelas falhas nas aulas de Sociologia, Filosofia, Linguagem e História.

Se o professor é o culpado, quem forma o professor é ainda mais.


A luta não é contra indivíduos. É contra o sistema. E o sistema, mais uma vez, mostra suas garras e dentes e nós caminhamos encantados em direção a eles pelo brilho que eles emanam.

quinta-feira, 16 de junho de 2016

Pitangus lictor

Quando a pedra se apaixona pelo pássaro, ela deve sempre lembrar que só o terá por alguns instantes, por muita sorte, se o pássaro resolver pousar sobre ela.

Se ela conseguir um meio de voar até ele, o matará.

À pedra, o quase imutável solo; ao pássaro, o ar, os galhos das árvores, talvez um ninho, mas sempre a brevidade.

Quando o pássaro se apaixona pela pedra, deve decidir se deixará nela alguma marca. E deve lembrar que, feita a marca, ela permanecerá.

Se ele um dia voltar a pousar sobre ela, ela se recordará. Mas não é dos pássaros lembrar.

Quando a pedra e o pássaro se apaixonam, eles continuam sendo uma pedra e um pássaro.

Não deveriam ser permitidos os sentimentos às pedras nem aos pássaros.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

FALTA UM NOME NO MEU SOBRENOME

Antes de adentrar no tema do texto a seguir gostaria de fazer duas coisas:
1. Me desculpar com todos os membros de minha família e explicar que não se trata de negação, rejeição e menos ainda de menosprezo a quaisquer de nossos antepassados de quem herdamos nossos nomes que nos unem.
2. Dizer que, caso algum dos meus conhecidos tenha um dos nomes ou cujo nome se enquadre nos parâmetros que citarei a seguir, que espero que saibam contextualizar e compreender minhas palavras e não considerarem como algum tipo de ataque pessoal.

FALTA UM NOME NO MEU SOBRENOME!

Recentemente, um desses aplicativos bobinhos do facebook me fez repensar em um assunto com o qual, vira e mexe, eu me deparo e que eu sempre vejo uma série de declarações pautadas pelo lugar-comum, mesmo entre algumas pessoas que considero bastante inteligentes, que têm por objetivo invalidar uma questão que toda diretamente na identidade de uma imensa parcela da população brasileira, aliás, americana. Gostaria de salientarque eu sei muito bem diferenciar um discurso de invalidação de uma real contestação e também de dúvidas reais.

Este aplicativo tenta adivinhar (na verdade, não passa de uma brincadeirinha com aleatoriedades, eu sei disso) a “descendência”(sic) das pessoas. Nem vou comentar sobre o usso errado do termo “descendência” neste caso, pois já tratei disso há algum tempo. O tal aplicativo me dava antepassados até na Austrália, mas em nenhuma das vezes que tentei apareceu que eu teria em meu DNA algum ancestral africano. Ora, eu sei também que não passa de uma brincadeirinha sem compromisso nenhum com a realidade, mas uma coisa me chama a atenção sempre que este assunto surge, inclusive em conversas menos descontraídas: boa parte das pessoas ainda tenta negar o direito do outro se declarar firmemente AFRODESCENDENTE.

As razões dessa negação não variam muito, sempre pendem para o lado das alegações de “ditadura do politicamente correto”, de “vitimização”, de “não se pode culpar agora as pessoas por erros passados da humanidade”... e muitas vezes quem deveria ter argumentos de defesa de uma ideia também acaba sucumbindo à tentação do uso repetitivo de palavras de ordem e bordões.

Pois farei agora duas afirmações, em caixa alta:

EU SOU UM AFRODESCENTENTE SUL-AMERICANO e, por causa disto, FALTA UM NOME NO MEU SOBRENOME.

É isso que muita gente, mesmo os “bem intencionados”, não percebe. Muitos desses já disseram, com orgulho, em algum momento na vida: “sou descendente de espanhóis”, “minha avó é italiana”, “tenho sobrenome polonês”; algumas vezes demonstrando até um bom conhecimento da história de seus ascendentes: “meu bisavô era um exímio sapateiro em Coimbra” ou “somos yonsei de uma tradicional família de lavradores”. Ok. Eu não tenho nenhum motívo, o menor que seja, para contestar alguém conhecer e afirmar suas ancestralidades, mas vou te contar uma coisinha sobre uns bons dois terços da minha árvore genealógica e também da de outros milhões de brasileiros): EU NÃO SEI A MINHA. E vou dizer o porquê de eu não saber: NÃO ME FOI PERMITIDO SABER.

Quando escravizaram e trouxeram os africanos para cá em navios do mesmo modo como fazem os caminhões clandestinos que transportam aves das granjas para os abatedouros, tiraram-lhes seus nomes, suas nações, suas profissões. Eram apenas “um negro forte”, “uma negra robusta”, “um negrinho rápido”. Eu não sei se meus ancestrais foram um agricultor do Congo ou uma sacerdotisa da Nigéria. Também não sei se tenho em minhas origens o sangue dos tapuias ou dos tamoios. Eu sei o meu Borges. Eu sei o meu Alves. Eu posso até ir mais longe e saber sobre os Tavares ou os Lopes ou Silva. Talvez, dessa herança, eu possa, um dia, pegar uma lata de azeite de graça no supermercado.


Mas é só isso e isso é só uma parte, ainda que ornada de bandeiras e brasões. Uma parte de três, eu diria. O que eu vou falar sobre as outras duas? O que eu vou falar sobre a maior parte das três? Nada me resta além de dizer “SOU UM AFRODESCENDENTE”, e direi isso com todas as letras e todas as nações que couberem nessa palavra. E peço... não. Eu EXIJO que levem isso em consideração toda vez que evocarem os seus sobrenomes de consoantes dobradas e semivogais de pronúncia complexa. Lembrem-se seus ícones midiáticos e seus patrões que atendem por “Ksyvickis”, “Michaelichen”, “Meneghel”, “Gentilli”, “Salles”, “Villela”, “Civita” e outros tantos. Lembrem-se deles e do orgulho que eles têm e que vocês também têm em portarem o nome de seus antepassados por tantas gerações e a possibilidade de fazer esses nomes permanecerem por tantas outras. E apenas não ouse, nem em pensamento, dizer que há uma “ditadura do politicamente correto” ou que há uma “opressão” por se fazer questão de afirmar suas raízes. E faça uma boa autoavaliação antes de tentar responder que “desse jeito todo mundo é afrodescendente”. Se você pensa assim, eu sinto muito. Você ainda não entendeu nada. E espero, sinceramente, que um dia possa aprender.

DISCURSO INDIRETO

Fui falar sobre você e não soube como te adjetivar.

Eu poderia dizer “amiga”, mas você sempre foi (nós sempre fomos) vários passos além disso e eu nunca te chamei assim.

As outras palavras e expressões que indicam o que eu sentia (sinto) ou o que nós tínhamos igualmente nunca foram aplicáveis e tampouco usadas por nós.

Para me referir a você, direta ou indiretamente, teu nome sempre bastou.

Fui falar sobre você e não soube.

E calei teu nome e o assunto.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

SEIS ANOS EM UM INVERNO DE SOL

2015 foi o ano em que completei 40 anos de idade. Cumpro minha promessa de comemorar o meu aniversário de volta à minha terra, da qual eu me afastei voluntariamente por seis anos. Mais importante que essa volta, foi esse período longe.

Muito fui questionado quando me decidi por ir morar em Fortaleza por um tempo. Muitos acharam que eu iria para não mais voltar. Outros tantos acharam que, uma vez lá, eu permaneceria. O que posso dizer é que, por mais que duvidassem, o meu retorno era a pedra fundamental da minha ida, e nunca houve como essa decisão ser modificada, não importando os fatores (e isso teve um custo).

Esse período, que foi para mim ao mesmo tempo exílio e retiro, me foi fundamental para uma retomada de certos pontos na minha vida. Nunca tive como objetivos me reinventar ou me reconstruir, mas me reformar, executar certos consertos essenciais para que eu pudesse colocar as coisas em seus devidos lugares e esta arrumação só pode ser feita agora, após minha volta.

Hoje, talvez (e ainda com algum receio de ser mal compreendido), posso responder a uma pergunta que invariavelmente me era feita enquanto morava em Fortaleza: "Você gosta daqui?". Há duas verdades que respondem a isto: 1. Gostar ou não da cidade nunca teve muita importância, o que, consequentemente, fez com que eu não me importasse em gostar ou, menos ainda, me importasse em criar algum vínculo afetivo com o local e 2. Fortaleza é uma cidade até bonita, litoral etc., mas com indisfarçáveis problemas como um racismo e um machismo tão transparentes e expostos que chegam a assombrar tal a "naturalidade" de certas situações. Nunca houve como eu gostar de Fortaleza, mas tive muita sorte de me cercar das pessoas certas e é o momento de falar delas.

Cada pessoa com a qual eu interagi nessa cidade foi fundamental no meu processo de retomada. Eu tinha que ser mais correto, mais centrado e mais humano do que eu jamais fora. Ninguém sabia quem ou o que eu era. Para todos, assim como para a cidade, eu era apenas "alguém de fora". Ter a consciência disso gerava o cuidado redobrado de saber onde pisar e o que dizer, não que com isso eu me visse forçado a, o tempo todo, "pisar em ovos", embora o começo tenha sido realmente assim,  mas aprender se perceber como "o outro" me fez ter muito mais sensibilidade ao também enxergar o outro como alguém que tem uma historicidade que eu desconheço e devo respeitar.

Entre algumas mudanças, Fortaleza é a cidade onde eu deixei de ser "músico" para me tornar apenas "o cara do violão". Mas me tornei mais professor, então a balança equilibrou.

Na continuidade deste lidar eu fiz contatos,  amizades sinceras, me encantei, me apaixonei, amei e até fui amado. Muito. Cada pessoa com quem estive pode ter a certeza de que, no que depende da minha vontade, jamais será esquecida, por mais que os momentos que tenhamos compartilhados tenham parecido, a uma visão menos atenta, fugazes ou irrelevantes. Não foram. Trago todos comigo e a saudade ficará, cada um em seu devido grau, com a sua devida importância. Cada um de vocês trouxe um bocado de luz e calor neste período de inverno da minha alma, ainda mais brilhantes que o sol da "Terra da Luz".

Já faz seis meses que voltei e ainda não consegui rever boa parte dos amigos daqui. Por uma série de motivos, ainda não foi possível. Alguns desses motivos fazem parte justamente desse processo de retorno. Eu nunca menti para mim mesmo que seria fácil, que seria tranquilo. Mas eu os reverei.

Alguns eu não poderei rever porque foram para outros pousos ou, como se diz eufemisticamente, "se foram". Destes, a impossibilidade de ter me despedido sempre será muito dolorida, especialmente por não estar junto dos amigos em comum e não ter com quem compartilhar e mesmo aliviar essas perdas.

Mas estou de volta à mon pays, onde, como eu costumava dizer, "eu não preciso saber o nome das ruas, pois as ruas já sabem o meu nome". E as ruas e as pessoas me conhecem, com toda a minha história e, consequentemente, meus erros e defeitos. Espero que ainda me reconheçam. Espero ter conseguido voltar melhor. 

Eu poderia continuar muito mais, mas eu só quero agradecer a cada um que esteve comigo neste tempo de partida e retorno, que foi para mim como um grande ano que durou exatos 2.273 dias. 

Nos reveremos, de algum modo, em 2016. Enfim, um novo ano, em que o novo e o já estabelecido ganharão nova amálgama. Que o novo surja e que o passado nos dê base. Hora de conferir de verdade se "a vida começa aos 40". Estou acreditando que, se não começa, pelo menos se renova.

Conto com a ajuda de vocês.

Beijo do velho.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

CAUSA E INCONSEQUÊNCIA

Muitas coisas acabam ficando no imaginário coletivo como indissociavelmente relacionadas de um modo que chega a ser nocivo.
Ah, a tranquilidade de poder gostar sem querer para si é um conforto que poucos hoje sabem ter. O querer bem sem a necessidade do desejar é um tipo de liberdade de sentimentos tremendamente pacificadora.
Chego a pensar que talvez seja este o real significado do tal "desapego" que tantos por aí apregoam e que eu só consigo ver mensagens egoístas e hedonistas de desconsideração ao outro enquanto igual.
Aparentemente, as pessoas conseguiram desassociar o desejo do sentimento, mas só em uma via. Pode-se desejar sem querer vínculos, mas esquecem de qualquer possibilidade além, mesmo que seja um processo de três fatores: o gostar, o querer e o “não”. Assim (por favor, me corrijam os especialistas em cálculos de possibilidades), há pelo menos quatro grandes possibilidades, não apenas duas. E deve-se lembrar inclusive que, em qualquer uma das configurações possíveis, há que existir a concordância plena do outro, especialmente no “não”.
Gostar é bom, faz bem. Desejar também é bom. Acredito realmente que o problema não está no desejar, mas como isto tem sido propagado e feito. Como lidar com o querer em um mundo em que em que tudo é potência e explosão e que preconiza a posse e a auto-satisfação acima de tudo? É um exercício constante, mas quando dá certo, a alma voa.
Queria poder voar tantas vezes quanto me fosse possível, mas nem sempre posso negar ser eu também parte do hoje.

Por enquanto, me basta estar satisfeito em lembrar que gostar e querer não seguem uma relação obrigatória de causa e consequência.

segunda-feira, 27 de julho de 2015

O SONO DOS JUSTOS


Há alguns dias, uma nova amiga, em um momento de desabafo (por conta de uma decepção com alguém e problemas decorrentes disto), pergunta "deve ser muito ruim saber que voê errou feio com alguém, né?". Mesmo sabendo que se tratava de uma pergunta retórica, que não precisava de mais que uma resposta que cumprisse a função fática, ou seja, permissiva para a continuidade da fala, meu ímpeto foi o de dizer "sei como é isso melhor do que ninguém", mas não o fiz, inclusive porque ela precisava dar prosseguimento ao seu desafogo e à sua catarse.
Pouco tempo depois, uma dessas pessoas com as quais eu já "errei feio" me fez uma pergunta de sopetão. Para ela a questão fora corriqueira e até inocente, mas houve uma lacuna de contextualização que me congelou por me rememorar tais erros. Só depois eu fora esclarecido que o contexto da pergunta era outro, mas é isso que é ter a consciência do erro.
E tempo todo, em nossos dias, inclusive hoje, vemos uma exacerbação do ser feliz em sua forma mais egoísta e imediata. A regra (que não é nada nova, não é, Piaf?) é a do “je ne regrette rien”. Vou na contramão. Faço questão dos meus arrependimentos. Não os esqueço, sob o custo de cometer os mesmos erros e ainda assim os cometo. Eu gostaria de verdade de achar que, como diz a canção, “eu não posso causar mal nenhum a não ser a mim mesmo”, mas eu sei que tenho capacidade de fazer males a outras pessoas também e já fiz, e boa parte delas ter sido descuido, desleixo ou algo realmente involuntário não me exime da tomada de consciência, o que se dirá do que eu já tenha alguma noção ao fazer. E há dias em que os principais erros pesam de forma mais contundente
É-me estranha uma sociedade em que todos são tão únicos e tão especiais... mas isso tampouco chega a ser alguma novidade, não é mesmo, Fernando Pessoa? Quem dera a mim também ouvir de alguém a voz humana que confessasse não um pecado, mas uma infâmia; que confessasse não um pecado, mas uma infâmia; que contasse, não uma violência, mas uma cobardia... Estou igualmente farto se semideuses inimputáveis. que contasse, não uma violência, mas uma cobardia... Estou igualmente farto se semideuses inimputáveis.
Mas não, nem tudo é só arrependimento. Há momentos dos quais há o que se orgulhar e, na maior parte do tempo, a ambiguidade e o nada. Mas esses ficam para um outro dia, um outro texto. Hoje eu fico com o que me arrependo e revendo onde e com quem eu posso ter errado, justamente para poder tentar me melhorar. E, ainda assim, saber que só poucas vezes isso dá efetivamente dá certo.

segunda-feira, 13 de julho de 2015

NO MEIO DA NOITE

Sou do tempo de esperar o telefone tocar. A verdade é que hoje em dia nem sei mais se é certo dizer "tocar"; eles vibram, chiam, apitam, assobiam, piscam... e nem mais é preciso atender, pode-se apenas ler as mensagens, ouvir os recados, verificar as notificações, todas perfeitamente identificadas, sem um traço de mistério na autoria... As tecnologias evoluem e modificam os processos e atos, mas o efeito permanece e o ponto de partida também: alguém em um determinado momento, tão inesperado quanto previsível, resolve dizer o que estava contido por vergonhas, inadequações ou o simples e angustiante "não saber o que dizer".

Quando acontece, é quase sempre durante os fins de semana, invariavelmente nas madrugadas. O autor normalmente se encontra em um estado psicológico atípico: um instante imediatamente após uma ocorrência traumática ou, mais comumente, um estado de razão alterada por estímulos químicos externos (ou tão-somente "embriaguez").

A emissão habitualmente gera um sentimento de culpa e constrangimento posterior logo na manhã seguinte. "Eu não deveria ter feito isso" é uma certeza ao se lembrar e se dar conta do feito.

Já ao receptor as reações não são tão típicas a ponto de ser possível descrevê-las em uma breve lista, menos ainda os momentos de recebimento das mensagens. Pode-se estar simplesmente dormindo - o que é uma sorte se o telefone estiver desligado ou sem som-, pode-se ver os recados deixados ao amanhecer (já acrescidos dos pedidos de desculpas); pode-se estar com o novo affair, o que configuraria o pior dos cenários (não... o pior seria este ainda atender o telefonema); pode-se estar em uma festa e o recebimento das mensagens se tornar motivo de chacota alheia... possibilidades mil, enfim.

Porém, algumas poucas dessas tão plurais variáveis encontram terreno oportuno e, apesar da vergonha do depois, de algum modo florescem.

Pode ser um telefonema às três da manhã com uma conhecida voz dizendo "eu só queria dizer que te amo" ou uma mensagem de texto que nem precisaria ser identificada dizendo "eu ainda penso em você". Certas vezes pode até ser uma confissão codificada no meio de uma conversa contando com a não compreensão do receptor e essa intenção acabar sendo frustrada por ele e algumas vezes pode ser bem mais simples... às vezes o inesperado surge e "só queria dizer... sei lá... 'oi'", como quem conta com o seu ombro para um alento (sem fazer perguntas).

Já fui tanto emissor como receptor e, em cada um desses papéis, segui caminhos paralelos e opostos. Todas as emissões resultaram no esperado arrependimento... acontece. Porém sempre tive a sorte de receber tais recados, sejam mais passionais e exagerados ou suaves e contidos, em momentos nos quais eu não apenas podia recebê-los sem ônus como, por vezes, chegavam a ser bem vindos como respostas aguardadas de perguntas igualmente nunca feitas por vergonhas, inadequações ou o simples e angustiante "não saber como dizer".

Algumas vezes essas mensagens surgem quando se está no meio do processo de escritura de um texto sobre como elas acontecem. Um tipo especial de coincidência. Alguns chamariam de "destino".

E lá se vão nove parágrafos.

sexta-feira, 10 de julho de 2015

DESABAFO



Nunca pensei em deixar o Brasil. Até agora. Tenho pensado nisso nos últimos dias. A razão disso? É justamente a palavra que resume a falta de razão: Medo. E não é o “medo de assalto” ou “medo da crise” ou “medo do desemprego”. Esses problemas aí eu já passei por todos eles e, muito infelizmente, já estou vacinado. Meu medo hoje é outro, é um que nunca pensei que fosse ter e que chega até a ser comparável com a minha fobia de alturas. Estou com medo de quem costumava ser meu semelhante.

Estou com medo de uma corrente de ódio e ignorância que vem sendo alimentada há mais tempo do que me lembro, mas que agora explode e sinto dificuldades de ver um ponto de retorno.


Estou com medo do ser humano médio da sociedade brasileira.


Estou com medo de ser apedrejado por não professar uma fé majoritária cujos adeptos acham que têm o direito de exterminar aqueles que não lhe são iguais e ainda haver quem defenda quem apedreja [1].


Estou com medo de encontrar meu irmão na rua, pois a primeira coisa que sempre faço é dar-lhe um beijo, e as pessoas nos atacarem por estarmos indo contra um código de moral e bons costumes que impede que pessoas se beijem, mas permite que pessoas agridam outras em nome seu nome [2].


Estou com medo de ser agredido por conta de ser confundido com alguém a partir de um boato qualquer na Internet e não ter chance de defesa física [3] ou moral [4].


Estou triste e com medo de ver gente com quem cresci defendendo assassinatos e linchamentos e se colocando ao lado de quem não tem o menor resquício de racionalidade, como repetidores automáticos de bordões que apelam para seus lados mais obscuros e os traz à tona: a nossa animalidade, a nossa irracionalidade. A nossa cegueira alimentada por barões da guerra.


Estou com medo por ver colegas atropelando a ética por status e lucro.


Estou com medo por ver os que deveriam ser meus parceiros ideológicos se rendendo igualmente a essa bola de neve que odeia por simplesmente odiar o que não lhe é igual e transformar tudo, seja uma dieta ou uma preferência de estilo literário, em religiões fundamentalistas que demonizam quem não lhes são seguidores, o que se dirá das assumidas e sectaristas religiões.


Estou triste por não conseguir mais eu mesmo ter a paciência necessária para tentar argumentar com quem se encontra nessa histeria coletiva, a quem só faltam rastelos, foices e tochas em punho para se configurar uma turba medieval.


Estou cansado de ver gente que acha que algumas pessoas tem que passar por todo o tipo de provas das mais humilhantes só para fracassarem e que isso justifique os dedos sempre apontados os chamando de incompetentes.


Essa entropia, causada e alimentada por séculos de estratégias de poder, é a nossa ruína. Não quero ir embora por causa dos políticos. Eles não são nada mais que os mais legítimos representantes do povo do nosso país. Maniqueistas, manipuladores, trapaceiros, egoístas e corruptos. Eu só não quero mais fazer parte disso, pois nunca fiz, mas tentava fazer alguma diferença mínima e nem isso quero mais...


Porém eu estou pessoalmente em uma fase de recomeços. Talvez eu ainda consiga algum novo oxigênio ao estar em contato com novas pessoas e um tanto mais do renovar da juventude da gente da minha terra. Talvez seja só uma fase. Talvez eu ainda consiga algum fôlego, afinal deixar de acreditar na capacidade do ser humano de ser melhor é deixar de acreditar em mim mesmo.


Por favor, me ajudem a perceber que a minha desesperança é um tremendo equívoco.

quinta-feira, 11 de junho de 2015

ENGANO (?)


"Então acabou tudo mesmo entre a gente?" dificilmente pode ser considerada a frase ideal para ser a primeira do dia, ainda mais se ouvida pelo telefone, equipamento que você pública e notoriamente detesta...

Aí você esboça uma resposta: "Como?", e ela responde do outro lado da linha: "Ah, desculpe, foi engano" e desliga. Você, ainda atordoado pela surpresa, desliga, olha para a tela do celular e percebe que o aparelho não reconhecera o número. É, foi um engano mesmo. Coitado do tal que irá encarar uma DR antes das oito da manhã.

...mas eu acho que conheço aquela voz.

sábado, 23 de maio de 2015

DESENHO N° 1

A princípio, eu também não via. Nem teria como. Mas a indagação era sempre a mesma e a resposta elucidadora era frustrada a quem havia errado e frustrante a quem perguntava, por não conseguir exprimir sua ideia. Não se podia atribuir culpa a nenhum dos lados; duas visões destoantes do mundo e da realidade que precisavam ser mediadas. Mesmo eu compreendendo as razões de ambos, eu não conseguia ver o que nenhum concluía ou demonstrava. Eu não via. Nem teria como.

Eu entendia as vozes encorpadas que respondiam e a insistente que perguntava e depois explicava. Apesar do que se queria que se visse, não era um chapéu; apesar do que se percebia, era uma jiboia. Mas eu não via. Nem teria como.

Foi quando a ação do tempo, lenta como lhe convinha e a situação, crescentemente claustrofóbica e sufocante como deveria ser me deram a clareza da compreensão. Eu não via. Nem teria como.

Eu era o elefante.

quinta-feira, 7 de maio de 2015

O Elevador





"Ora, quem é que não sabe
O que é se sentir sozinho,
Mais sozinho que um elevador vazio?"
(“Blues do Elevador” - Zeca Baleiro)


Já percebia que havia algo estranho... não... não estranho... “diferente” quando pegava aquele elevador, mas não sabia identificar o que seria aquilo, era apenas uma sensação.

Em um primeiro momento, pensava ser só o fato de ser um prédio diferente, talvez a localização tão litorânea causasse algum efeito atmosférico, talvez fosse apenas questão da falta de costume com o prédio... mas não. A sensação permanecia. Algo estava acontecendo.

Com o passar do tempo, prestando mais atenção aos detalhes, percebera que o relógio do elevador nunca estava certo. Algumas vezes a diferença era de alguns minutos, outras vezes era até de horas, chegando a ser um horário de um outro período do dia. Os elementos se somavam, mas ainda não faziam sentido.

Um dia, ao entrar no elevador com o fone no ouvido, escutando um desses rocks setentistas cheios de firulas instrumentais e logo após ter lido uma notícia sobre a série televisiva inglesa Dr. Who, a ideia surge em tom de piada na mente e causa riso. Aquele elevador era uma máquina do tempo. Hahahaha!

Mas... e se houvesse alguma possibilidade de algo tão esdrúxulo ser real? Pensar assim fez com que isso fosse tomando forma na cabeça, não de uma forma preocupante, mas até lúdica. Explicações tão dignas dos piores filmes “B” quantos dos maiores clássicos da ficção científica.

O que não dava para imaginar era que essa ideia quase boba, quase saída de alguma história em quadrinhos era a mais simples verdade. O elevador era uma máquina do tempo, mas só agia sob determinadas condições e tinha algumas peculiaridades.

A viagem no tempo se dava da seguinte forma: Quando as portas do elevador se fechavam, o seu interior e o seu exterior passavam a ser tempos diferentes. Enquanto suas portas estivessem fechadas, seu ambiente interno era levado para um outro período, aleatoriamente. Poderia ser o passado ou o futuro, alguns segundos ou séculos para frente ou para trás. Sempre que parava em algum andar para entrada ou saída de pessoas, ao se abrirem as portas a sincronização com o tempo exterior se restabelecia. O tempo não se distorcia, apenas se transferia para outra época.

Não sabia se mais alguém que pegasse aquele elevador fazia alguma ideia de que isso acontecia ou mesmo se partilhava da mesma sensação. Falar sobre isso seria loucura. Mesmo sem falar, já seria loucura. De todo modo, era melhor pegar o elevador sem mais ninguém.

Mas como aproveitar estar no ano de 1208 ou em 3425 se não havia como sair daquele cubículo cromado de 110 x 90 cm? A única coisa que se podia fazer era respirar e pensar... e torcer para que a viagem não fosse interrompida em nenhum andar em que a porta se abrisse.

Essa subida para o seu apartamento sempre foi um momento muito bem vindo de irrealidade em todo o tempo-espaço.

“Entro no elevador,
Aperto o 12, que é o seu andar,
Não vejo a hora de te reencontrar
(“All Star” - Nando Reis)